CIA DA NOTÍCIA

O CAPITÃO AZA, O REGIME MILITAR E AS CRIANÇAS

Julio Cezar de Oliveira Gomes

Nas décadas de 1960 e 1970 a Rede Tupi de Televisão levou ao ar um programa que era a alegria da garotada: era o Capitão Aza, que de dentro de sua aeronave – e depois de sua nave espacial – fazia “contato” com vários desenhos, chamando-os para serem exibidos na TV.

Lembro-me do Capitão Aza convocando aos personagens dos desenhos para se apresentarem imediatamente, vindos do mundo distante onde se encontravam: “Alô, alô, câmbio, responda onde quer que você esteja, Capitão Aza chamando…” e lá vinha o desenho animado para a alegria das crianças!

Era muito bom. Desenhos como A Corrida Maluca, Speed Racer, o velho e cego Mr. Magoo, os Brasinhas do Espaço, além de séries como Jeannie É um Gênio, A Feiticeira e outras.

Claro que o Capitão Aza tinha também a finalidade de melhorar a imagem das Forças Armadas e, consequentemente, do Regime Militar junto às crianças e ao público mais jovem, contrapondo-se às pesadas imagens de homens de farda com semblante carregado, de óculos escuros e aspecto sombrio, que encarnavam o peso da repressão e do autoritarismo militarista daqueles anos de chumbo.

Entretanto, para a garotada nada disso existia. Havia apenas o Capitão Aza e as crianças, seus desenhos, seus seriados americanos, sempre espremidos entre o horário de fazer os deveres e o momento de sair para a escola, pois não se podia chegar atrasado ao colégio.

É obvio que não dá para ter saudades do Brasil ditadura militar, dos desaparecimentos de pessoas e das torturas por motivos políticos, dos Atos Institucionais, especialmente do AI – 5. Tudo isso se foi, mas, por vezes, as lembranças ainda doem.

Entretanto, é possível recordar com despreocupada alegria daquele Capitão que dizia que as crianças tinham que ir para a escola, fazer seus deveres e obedecer aos pais, porque de fato criança que cresce longe da escola e não ouve ou respeita aos pais está em um caminho que, infelizmente, terá tudo para levá-la a um futuro de grandes dificuldades.

Crianças precisam de diversão, de lazer, de saúde e alegria. Mas também precisam obedecer ordens – por mais estranho que isto possa soar hoje em dia. Precisam ter limites, ter horários, saber que há coisas que não devem fazer, e acatar isto.

Espero que os tempos da ditadura tenham passado para nunca mais voltar em nossa história. Mas desejo que o Capitão Aza, que se encontra em algum ponto distante do Espaço Sideral, faça contato com a felicidade que ajudou a semear entre as crianças que tanto cativou.

Graduado em História e em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). e-mail juliogomesbr@ig.com.br

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