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Carta de Adelindo Kfoury
ONDE ESTOU, MESMO?!
Primeira vez que pisei em Brasília, foi em novembro de 1960, voando num daqueles enormes skymaster da Loyd, que em Itabuna era representada pelo saudoso amigo Bráulio Almeida. Presidente da Associação Cultural e Esportiva dos Bancários de Itabuna, precursora do atual Sindicato dos Bancários, eu chefiava uma segunda turma de colegas (a primeira, veio liderada por Célio Franco, Diretor Social) pois que era verdadeira “febre cívica” conhecer a recém inaugurada Capital Federal.
BRASÍLIA:- Ainda no périplo de férias pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, continuarei por mais alguns dias no Planalto Central. Aqui, despontam muitas recordações neste velho coração grapiúna, quando no exercício de atividades na Ceplac. Entrando e saindo de Gabinetes, Ministérios e Casas Legislativas no infindável afã da divulgação do nosso Órgão e também como coordenador principal da Barraca do Estado da Bahia –monumental estrutura montada no interior da Festa dos Estados durante três dias em todo mês de junho- sobram reminiscências. Sob o comando do saudoso José Haroldo, contando com a inestimável colaboração de bons colegas, além do leal e decidido apoio de Cícero Milmo (que figura humana extraordinária!) vivi talvez uma das fases mais importantes das longas jornadas de meus desempenhos profissionais.
A motivação das maltraçadas para esta quinzena, é trazer um depoimento sincero sobre “a Brasília que conheci naqueles idos” e a “Brasília que vejo no hoje em dia”…
“Naqueles idos”, dava gosto e grande estímulo a convivência com as personalidades públicas. A filosofia de trabalho dos ceplaqueanos era a mais absoluta isenção política. Jamais fomos levados atuar em favor desta ou aquela sigla, deste ou daquele Deputado, Senador ou Ministro. Para nós, os assuntos relativos à cultura do cacau da Amazônia ou Bahia, recebiam o tratamento adequado, pois que, além de tudo, a principal Sede Administrativa do Órgão era sua Secretaria Geral aqui instalada e prevalecia o sentimento de estar o Brasil acima de querelas regionalistas. Éramos respeitados e acatados no desempenho das várias atividades. Considerávamos uma honra ombrearmo-nos com as autoridades, pois que delas emanava uma aura de honestidade e correção. Claro que, não sendo o Homem um ser absolutamente perfeito, ocorriam distorções, mas delas nos precavíamos.
“Na Brasília de hoje”, invade-me um sentimento de revolta e desencanto. Não posso fazer referência ao meu querido Órgão porque, aposentado, careço de conhecimento das suas ações. Entretanto, quanto às autoridades, o que invade este já cansado coração é sensação de nojo, repugnância e decepção! Autoridades federais, que por dever de ofício deveriam desempenhar suas funções visando o bem da coletividade, rumam justamente ao contrário, isto é, tirando da comunidade muitos bens para si próprios… Tenho a minha frente, exemplar do Correio Brasiliense (que junto ao Estado de São Paulo, são meus ícones) trazendo matéria sobre o atiçado apetite dos Ministros “…uma disputa de R$63,23 bilhões envolvendo sete legendas … volume total destinado a investimentos nos ministérios que compõem a base de apoio ao governo federal” porque isso redunda em prestigio pessoal e força para 2014… Vê-se claramente, a escolha de Ministros obedece aos esquemas partidários e nunca ao grau de competência pessoal. O “respeitável público” todas as semanas exerce uma atividade que se tornou hábito: esperar pelas revistas trazendo novos escândalos de roubos e prevaricações em casas legislativas e órgãos oficiais!”
Confesso-me confuso. Será aqui a verdadeira Capital de meu país onde passei grandes momentos de minha vida profissional?
Adelindo Kfoury Silveira é Historiador, Escritor e Jornalista grapiúna, Membro da Academia de Letras de Ilhéus, Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Instituto Histórico de Ilhéus, Historiador Principal da Fundação Jupará-Itabuna
CARTA DE ADELINDO KFOURY

AINDA SOMOS UM IMPÉRIO?
Sempre de quinze em quinze dias gozo momentos de alegria, pois que recebo com pontualidade britânica o exemplar do TABU editado em Canavieiras pelos queridíssimos amigos (mestres com os quais sempre aprendo) Wallace e Tyrone Perrucho e como garantem no frontispício “UM JORNAL SEM PRECONCEITOS”. No seu número mais recente, deparo com transcrição de uma frase do escritor português Eça de Queiroz “os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão”. Como estou justamente dentro do covil onde eles existem, permito-me a ilação das maltraçadas para hoje.
BRASÍLIA:- Uma das primeiras coisas que aprendi nos cursos superiores foi que nossas cidades, na acepção da palavra, surgiram durante o absolutismo. Como então não existiam eleições livres, seus governantes não tinham porque dar satisfações ao povo. Naturalmente que, et pour cause (como dizem os queridos quasenheum leitores eruditos), o Brasil em seus primórdios foi administrado segundo a igualdade de todos diante do Rei. Praticamente em sua maioria os cargos públicos eram alugados ou vendidos, ao sabor dos interesses da Corte. Sendo nosso território de imensas proporções e porque os meios de transporte e comunicações mostravam-se absolutamente precários, era difícil qualquer forma de fiscalização eficiente, obrigando serem nossas cidades e vilas administradas à distância. Tais óbices, porém, não impediam que os impostos seguissem diretamente para Lisboa, mas se tornava “justificativa” ao não retorno em forma de quaisquer benefícios para nós tupiniquins.
Somente após o advento da Independência, o Rio de Janeiro tornou-se lugar para onde convergiam os impostos cobrados nas cidades. Naturalmente que para as cidades geradoras só aconteciam pequenos retornos em formas de serviços, mediante interferência pessoal das oligarquias regionais. Isso mostra-nos sobejamente a História, fez com que as comunidades longe da “Corte” penassem por séculos (desgraçadamente até hoje ainda existam exemplos…) sem elementares serviços públicos.
Ontem na Biblioteca de Brasília, passei a vista num interessante trabalho de M. S. Carvalho Franco tratando de mistura de recursos públicos e privados, sob o título “Homens Livres na Ordem Escravocrata” onde faz citações sobre vereadores que em determinada época do passado emprestavam dinheiro para as obras das cidades, chamando-me atenção quando afirma: … “se retiram do bolso ajuda para os cofres oficiais, eles imaginam ter autorização ética para subtrair dos mesmos cofres o socorro para seus apuros”. Não sei se é o clima aqui da Capital Federal, mas saí dali meio zonzo.
Bahia, mãe ou madrasta?
Walmir Rosário
As críticas feitas recentemente pelo vereador ilheense Paulo Carqueija (PT) ao governador Jaques Wagner representou um grito de liberdade em cada um dos baianos, especialmente nos sul-baianos, cansados de esperar o cumprimento das promessas da autoridade estadual. A censura imposta ao governador pelo petista no plenário da Câmara de Vereadores de Ilhéus, pela segunda vez, demonstra o quadro de descaso que os ocupantes do poder executivo – geralmente da Bahia do Norte – nutrem pelos moradores da Bahia do Sul.
Em parte, têm razão. Agem como os colonizadores portugueses em relação ao Brasil, sugando todas as nossas riquezas sem a menor preocupação de ao menos nos tapear com as migalhas que por ventura caia da mesa de banquete, tudo com nossa permissão histórica. A exemplo do que fez o reino de Portugal, a cada dia querem levar “nosso ouro” com toda a volúpia, sem nos conceder o direito de usufruir de parte das riquezas aqui produzidas.
Aqui, nos acostumamos a abrir mão dos nossos direitos, de nossa soberania em troca de simples miçangas, espelhinhos e outras bugigangas. Sempre nos bastou o sorriso fácil dos soteropolitanos ou de interioranos emergentes para consideramos nossos amigos, nossos protetores na capital do estado. A cada governo – não importando o partido –, as promessas eram repetidas e enriquecidas com novas, talhadas para não serem cumpridas.
De início, abrimos mão do poder político, entregando-o, de mãos beijadas, às pessoas ditas mais preparadas e de fácil trânsito junto ao governador, presidente da República, senadores e deputados. Claro, já detínhamos o poder econômico, precisávamos plantar e cuidar das nossas roças de cacau, enriquecer mais. Nosso compromisso era comprar sobrados e apartamentos no “Corredor da Vitória”, em Salvador; em Copacabana, no Rio de Janeiro; então capital federal, mandar os filhos estudarem para ser doutor.
Aqui, ricos como éramos, dispensávamos o poder do Estado para implantar a infraestrutura e investíamos na implantação da eletricidade – no campo e na cidade –, e cansados com pachorrenta viagem no trem de ferro, criamos uma empresa de sociedade anônima, a “Companhia Viação Sul Baiano S.A”, para construir a estrada Ilhéus-Itabuna e viajar de ônibus, as modernas marinetes que tanto sucesso faziam nas capitais brasileiras.
Mas passamos por períodos de dificuldades em nossa maior matriz econômica, a cacauicultura, atividade por demais rendosa, que com a mesma facilidade que produzia riqueza e “coronéis”, proporcionava a pobreza de consciência e a submissão aos mais poderosos. Àquela época, nos sentíamos orgulhosos de, com o dinheiro dos impostos do cacau, uma atividade econômica primária por excelência, financiarmos o parque industrial de São Paulo.
Se as riquezas aqui produzidas eram utilizadas em nível federal, gerando divisas internas e externas, dentro da Bahia reinávamos absolutos na arrecadação de impostos, agindo como a maior região contribuinte para o erário estadual. E os registros históricos demonstram que a máquina arrecadadora do Estado se preocupava apenas com os meses subsequentes à colheita da safra principal e temporã.



