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Corrigir os rumos

Walmir Rosário

A denuncia de um pesquisador do Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec) sobre o comportamento das plantas fornecedoras de material genético para o Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia, localizadas na Biofábrica, é mais um motivo para que sejam corrigidos os rumos desse projeto. Essas plantas, que deveriam se transformar nos clones salvadores da cacauicultura baiana, estão altamente infectados pela vassoura-de-bruxa, conforme comprovou o pesquisador.

Mais uma vez queremos alertar que não temos a pretensão de nos transformar em “arauto do caos”, trazendo o pessimismo e notícias nada alentadoras em relação à cacauicultura. Pelo contrário, sistematicamente, temos procurado mostrar as experiências e os resultados positivos alcançados na clonagem de cacaueiros, no sentido de demonstrar que o cacau ainda é um bom negócio. Disso todos são testemunhas.

Entretanto, não podemos ficar calados – temos compromisso com nossos leitores e a comunidade – e esconder fatos que contrariam o bom andamento da recuperação da cacauicultura, principalmente no que toca à defesa dos cacauicultores, que depositam nesse programa todas as suas esperanças. A denúncia formulada pelo pesquisador da Ceplac é séria e deveria ser tornada pública, para o conhecimento dos interessados – os agricultores –, permitindo que eles pudessem obter material genético de outras fontes que não a Biofábrica, onde o número de vassoura de lançamento chega a 500 em algumas plantas, o que é bastante elevado, conforme avaliação dos técnicos.

O aumento vertiginoso do número de vassoura de lançamento é uma comprovação de que o procedimento normal para a multiplicação de material genético não é o centralizado, utilizado atualmente, privilegiando a Biofábrica na distribuição de mudas e garfos, e sim descentralizado, com a implantação de jardins clonais nas diversas fazendas. É preciso que as lideranças e autoridades tomem providências no sentido de mudar os rumos do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia, que privilegia o uso de insumos num “pacote fechado”, como se as condições de todas as propriedades fossem iguais.

Entre os diversos erros cometidos no programa, nós, leigos em matéria de agronomia, podemos destacar a centralização como o pior deles, principalmente se levarmos em conta a base genética estreita em que ainda está calcado o programa. O pior disto tudo é que foram rasgadas todas as recomendações contidas nos manuais elaborados pelos técnicos da Ceplac durante mais de 30 anos. Historicamente, o ensinamento da Ceplac era de que as mudas teriam que ser feitas nas fazendas, para evitar uma série de transtornos, entre eles a falta de aclimatação e a interação ao meio ambiente. Será que teremos que jogar fora todo um cabedal de conhecimento adquirido ao longo desse tempo? Ou os técnicos estavam errados?

Pesam ainda contra o programa de distribuição de material genético centralizado, o aspecto econômico, gerando um alto custo no transporte do material genético, acrescido das perdas causadas pela sua transferência da Biofábrica até as fazendas, algumas delas distantes centenas de quilômetros. No caso do transporte de mudas a situação é ainda mais agravada – no momento não se comporta recuperar através das mudas, pois a resposta é a longo prazo –, pois o ideal é a renovação por garfo para a enxertia, nos cacaueiros existentes, mesmo se levando em conta a baixa densidade das roças da região. O adensamento, sim, que deve ser feito concomitantemente, ou posteriormente, por muda, para posterior enxertia.

Também causa muita estranheza o fato de técnicos experientes – os melhores do mundo em culturas tropicais, a exemplo do cacau – não elaborarem e divulgarem um calendário demonstrando as épocas adequadas para a enxertia. É por demais sabido que nos períodos mais frios as plantas ficam em repouso fisiológico, sem circulação de seiva, ou circulação muito lenta, reduzindo em muito o índice de perda da enxertia. Todo esse processo tem um custo bastante elevado para os agricultores, principalmente se levarmos em conta sua descapitalização.

Nessa história de erros e acertos devemos levar em consideração a posição dos pesquisadores da Ceplac em resistir às constantes pressões feitas para liberar imediatamente os clones, frutos das pesquisas. Não devemos “cortar as cabeças” dos técnicos da Ceplac, que desde 1994 se posicionaram contra a distribuição indiscriminada desse material genético. A estratégia dos técnicos é a liberação gradativa, de acordo com o comportamento no meio ambiente.

Porém, diante da pressão de políticos, autoridades e dos próprios agricultores, desesperados pela ação devastadora da vassoura-de-bruxa nas lavouras, tentaram se “agarrar à primeira tábua da salvação” que lhe aparecesse, os técnicos se sentiram impotentes e iniciaram a distribuição do material genético para a Biofábrica, contrariando os princípios técnicos que indicavam serem os jardins clonais a forma correta dessa distribuição. Resultado: “Entraram na onda” do Estado e CNPq, desconhecedores da realidade local. Mas ainda há tempo de reverter essa realidade.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 10-07-1999

Só no próximo ano

Walmir Rosário

Com a proximidade das eleições, todo o Brasil parou para assistir a disputa entre os candidatos à Presidência da República. Por conta disso, nossos parlamentares também não trabalham em plenário ou nos bastidores dos ministérios, pois se encontram atarefadíssimos em busca de votos e dinheiro para incrementar a campanha.

Enquanto isso, os mortais cidadãos – do Oiapoque ao Chuí – ficam ao sabor da própria sorte. Caso um desses desvalidos precise de um serviço oferecido pelos governos, especialmente o federal – mais longe do contribuinte – encontra o cofre trancado, apesar da necessidade da prestação do serviço. O mesmo tratamento não vale para os banqueiros, empresários da aviação e outros tantos privilegiados.

Os agricultores, pelo tratamento que recebem do Governo Federal, estão incluídos na classe dos desvalidos, e os altos escalões em Brasília não abrem mão de cortar rubricas do Orçamento. Mesmo que isso importe em significantes prejuízos para o país. Decisão tomada, promessa cumprida. E que exploda o Brasil.

Aqui, bem pertinho de nós, na Ceplac, responsável pela pesquisa, assistência técnica e ensino técnico agropecuário nas regiões cacaueiras do Brasil, estamos presenciando as ações desse (des)governo. Há muito os técnicos não podem exercer o seu mister por absoluta falta de recursos. Não há dinheiro para abastecer os carros, pagar a energia elétrica, telefone e outras despesas normais de custeio.

Não é apenas uma nova ordem para desmantelar a Ceplac, pois sua prima-rica, a Embrapa, também está padecendo do mesmo mal: o descaso dos nossos governantes. Mas, o que nos interessa mesmo é como o cacauicultor vai poder continuar a renovar suas roças sem ter por perto quem lhes dê orientação técnica, quem conduza essa grande programa instituído pelo próprio Governo Federal.

É a própria sobrevivência da Ceplac, como instituição eficiente, que está em jogo, e o cacauicultor terá, pela primeira vez, de assumir a condução do seu próprio destino. Ao contrário de antes, quando delegada à Ceplac o que fazer da sua propriedade, hoje é ele quem deverá decidir sobre o futuro e a viabilidade do seu próprio negócio.

É chegada a hora do agricultor, além de planejar seu próprio negócio, influenciar nas decisões políticas que o cercam. Parece inverossímil, mas o produtor de cacau ainda não possui o prestígio e força política para carrear os recursos necessários ao fomento de sua atividade. E olhe que se trata da liberação de apenas R$ 127 milhões para a recuperação da lavoura de cacau da Bahia.

Se um recurso de pequena monta como esse se torna inacessível aos cacauicultores, não há de se pensar em promessas maiores, a exemplo dos R$ 489 milhões para o custeio da safra. Ainda mais se levarmos em conta que estamos em fim de governo, quando está em baixa manter a hierarquia administrativa. Será melhor para o cacauicultor – como todo o cidadão – pensar no futuro, no próximo ano, quando poderá, de forma organizada, cobrar dos nossos governantes essa dívida histórica para com a cacauicultura.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 14-09-2002

 

Democratizar a informação já

Walmir Rosário

As cobranças feitas pela sociedade ainda não foram devidamente assimiladas pela Ceplac, no sentido de que ela possa se tornar um órgão transparente, demonstrando aos seus clientes qual o verdadeiro estágio do programa de pesquisa da vassoura-de-bruxa. Até agora nenhum mortal comum conseguiu abrir a famosa “caixa preta” da Ceplac, em que pese os veementes apelos que vêm sendo feitos há muitos anos.

É inadmissível – nos dias de hoje – que certos setores da administração pública ainda adotem certo tipo de comportamento, no qual a comunicação é feita em apenas uma via, mesmo que o investimento utilizado pela instituição seja feito com o dinheiro do contribuinte. A cobrança que temos feito à Ceplac – de certa forma sistemática – não se trata de perseguição, como pensam alguns, e sim de estabelecer um diálogo com os produtores rurais.

Enquanto uma parte da sociedade ainda se comporta como há anos, conforme o estabelecido no regime ditatorial, outra parte, consciente e livre de amarras, deseja saber detalhes sobre a parte técnica do programa de combate à vassoura-de-bruxa. E para isso, costumeiramente, o fazem através do Agora Rural , veículo de comunicação que vem se firmando como um porta-voz da cadeia produtiva rural.

Não se trata de nenhum demérito para uma instituição ser inquirida por setores da sociedade, ao contrário, pode ser entendida até como uma demonstração de interesse pelo trabalho que realiza. É uma rotina nas universidades e demais órgãos de pesquisa – e todos do corpo técnico da Ceplac sabem –, a “cobrança” iniciar-se ainda âmbito interno, através da “prestação de contas” da produção do pesquisador, solicitada pelos dirigentes.

Essa produção não se resume apenas à pesquisa em si, mas compreende todas as fases do conhecimento, como a publicação de artigos científicos em jornais e revistas especializadas, boletins técnicos, livros editados, entre outros. Em que pese a edição de publicações técnicas na Ceplac, a produção chega a ser incipiente, sobretudo se levarmos em conta a quantidade de pesquisadores que fazem parte do quadro do órgão, grande parte deles com pós-graduação em nível de especialização, mestrado, doutorado e PhD.

Outra deficiência da pesquisa da Ceplac é a falta de entrosamento entre pesquisadores e extensionistas, reduzindo, portanto, o número de informações sobre o andamento do programa de substituição dos cacaueiros decadentes por plantas tolerantes à vassoura-de-bruxa e de alta produtividade. Grande parte da recuperação da lavoura está sendo feita com recursos próprios e material genético de boa qualidade, prospectado nas próprias roças e distribuídas através do intercâmbio entre produtores.

Esse material genético, entretanto, é desconhecido oficialmente da pesquisa, que poderia alargar sua base genética através da validação, que poderia ser feita apoiando-se nos dados de extensionistas e produtores mais organizados. Outra proposta é identificar, nessas plantas utilizadas pelos cacauicultores, genes que indiquem novas fontes de resistência à vassoura e de comprovada produtividade, utilizando-se recursos da engenharia genética. É hora de aproveitarmos todo o potencial do laboratório de biotecnologia e o conhecimento dos seus técnicos.

Em qualquer país do mundo, a exemplo da Malásia, os institutos de pesquisa e fomento agrícola não permitem que qualquer tipo de plantio, por menor que seja, possa ser formado com menos de 20 plantas de características diferentes. Aqui, onde possuímos o maior centro de pesquisas de cacau do mundo, nos contentamos substituir 300 mil hectares com pouco mais de cindo clones, número insignificativo de variedades para o porte do programa.

A Ceplac prestaria uma contribuição significativa à economia cacaueira se imprimisse mais celeridade nas seleções locais, bem como ajudar de forma mais objetiva na identificação e seleção do material genético existente nas fazendas, e que estão sendo aproveitadas com sucesso por alguns cacauicultores. Nesse caso, seria feita uma seleção mais criteriosa, pois esse material genético já está adaptado às nossas condições, convivendo em harmonia o nosso meio ambiente.

Nesse particular, nossos cacauicultores estão esbanjando sabedoria ao dar preferência ao material genético local, implantando essas variedades nas áreas comerciais, por se tratar de plantas de características conhecidas. Isso não quer dizer que desprezem os clones liberados pela Ceplac, pelo contrário, eles – os clones – foram introduzidos em seus jardins clonais, onde são observadas suas características e comportamento ambiental.

Temos consciência da responsabilidade da Ceplac na liberação de cada clone, principalmente os trazidos de outros locais. Entretanto, não custa lembrar que o programa de identificação de material genético resistente e de alta produtividade, em nível de fazendas, teve início em 1991, e intensificado a partir de 93, através dos investimentos feitos pelo Fundecau. Durante esse tempo, mais de 1.500 plantas foram selecionadas, sendo que cerca de 150 delas foram consideradas de boa qualidade.

Hoje, pelo menos cerca de 40 plantas já são sobejamente conhecidas de técnicos e produtores, cujos estudos estão guardados a “sete chaves” nos computadores do Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec). É preciso, o quanto antes, abrir a “caixa preta” e demonstrar à sociedade o que está sendo feito e como deverá ser feito. A Nação Grapiúna, unida pela cultura do cacau, não suporta mais viver de especulação. Então, que se apresentem os dados com toda a transparência recomendada, e coloquem já esses materiais diretamente nos jardins clonais dos produtores.

Sabemos que a Ceplac detém conhecimento científico e materiais genéticos, mas faltam as informações suficientes para que a lavoura de cacau possa ser transformada. Toda mudança é difícil, traumática, e a Ceplac bem sabe disso. É necessário todo um processo educativo voltado para despertar o interesse  nos atores envolvidos – produtores e trabalhadores rurais –, através de um acompanhamento sistematizado dos imóveis rurais participantes na clonagem.

Nisso a Ceplac tem know-how suficiente, adquirido nas históricas campanhas de utilização de adubos, inseticidas, fungicidas e outros insumos modernos. Nesse processo também entra o aspecto comportamental – com ênfase para a administração rural –, no qual o proprietário deixa de ser m simples dono de roça de cacau, realizando visitas mensais para fazer o pagamento, para se tornar um agricultor. Se isso acontecer, a lavoura estará salva.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 29-05-1999

O prazo é pequeno

Walmir Rosário

Com o anúncio da liberação do crédito para o Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira feito pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, dia 21 passado, em Ilhéus, os cacauicultores esperam que não se trate de mais uma promessa.

Os recursos colocados à disposição do Programa, num passado recente, desafiou políticos de reconhecida capacidade e liderança nacional, não atendendo à sua finalidade e perdendo-se nos meandros da burocracia bancária. Segundo as autoridades, agora é diferente, pois a liberação está condicionada ao fornecimento de material genético tolerante à vassoura-de-bruxa e de alta produtividade.

Esperamos que não haja contratempos. A Ceplac pesquisou e, através da Biofábrica, está colocando à disposição dos cacauicultores os tão esperados clones. Entretanto, não podemos perder o prazo da liberação dos recursos em tempo hábil para a realização das práticas recomendadas pelos técnicos da Ceplac, do contrário, estamos apenas endividando ainda mais a combalida economia cacaueira.

A liberação dos recursos é de suma importância para o combate à vassoura-de-bruxa, porém o programa de crédito elaborado por tecnocratas de Brasília não atenta para a realidade da produção, em que pese o esforço empreendido pelos políticos baianos e técnicos da Ceplac e da Secretaria da Agricultura do Estado da Bahia, a exemplo dos prazos para o pagamento dos contratos.

É necessário mais tempo para que o cacauicultor possa colher esses frutos e honrar sua dívida, o que não acontece com menos de cinco anos. Também os juros precisam ser revistos, sob pena de inviabilizar a economia de toda uma região. Afinal, existe uma norma corrente no meio financeiro e que são ditas pelos próprios tecnocratas do BNDES: “Não se coloca dinheiro bom numa atividade ruim”. Essa máxima vale também para o financiamento da cacauicultura.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 30-08-1998

A agricultura como exemplo

Walmir Rosário

Com a descoberta do ataque da vassoura-de-bruxa nos cacauais do Sul da Bahia – antes tido como inacessíveis à essa terrível doença – a mentalidade do povo grapiúna vem se conscientizando para a necessidade de evolução da agricultura regional. Não estamos aqui faltando da evolução tecnológica realizada pelos técnicos da Ceplac, da Uesc e outras instituições que tanto contribuíram na descoberta do tratamento da doença, no combate às pragas em novas, tolerantes e produtivas espécies de cacaueiros ou de outras atividades agropecuárias.

Estamos abordando uma questão mais ampla, a mudança do comportamento regional, acreditando na cacauicultura como seu principal ramo de atividade, sem, no entanto, depender essencialmente dos resultados desta cultura, tão subordinada a vários fatores. Como exemplo dessa dependência estão as adversidades climáticas, aos baixos preços conseguidos no mercado internacional, dos níveis de infestação da vassoura-de-bruxa, dos índices de endividamento do produtor e até mesmo da vontade dos industriais em importar cacau africano de qualidade duvidosa.

Hoje, passados 10 anos de convivência com a vassoura-de-bruxa, as transformações sociais podem ser vistas a olhos nus. Claro que estamos longe de viver numa “Califórnia ao Sul do Equador”, onde sobram empregos e riquezas, mas sim onde há confiança no futuro. Que região seria capaz de atravessar por duas crises conjuntas – a da cacauicultura e a nacional – vencendo a luta contra a vassoura-de-bruxa, transformando a pecuária – de leite e corte – e a criação de equinos, todas atividades que utilizam recursos tecnológicos de última geração, sem falarmos nas atividades industrial e turística, que crescem substancialmente.

Além da atração de divisas para a capitalização da economia regional, existe também um chamamento para transformar a Região Cacaueira da Bahia num centro de geração de inteligência. Exemplos cristalinos dessas mudanças estão acontecendo na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), com a criação de cursos voltados para a agropecuária, a exemplo de Agronomia e Medicina Veterinária; nas Emarc’s, que ministram cursos de nível técnico para atividades agropecuária e agroindustrial.

Essas iniciativas consolidam as atividades do agrobussiness pela exploração vertical dos imóveis rurais através de gestão empresarial, com o objetivo de produzir mais, com qualidade e baixo custo, elevando o nível de competitividade requerido por um mercado cada vez mais globalizado. Daqui pra frente, o importante não é só produzir muito, e sim produzir dentro de padrões adequados e compatíveis como o tipo de atividade. Para tornar isso possível, o produtor rural deve sair do isolamento e ir em busca de novos conhecimentos e parcerias junto às associações, cooperativas e fornecedores. Do contrário estará fadado a mudar de ramo.

Mais uma vez a Região Cacaueira da Bahia dá uma prova inequívoca de confiança no futuro, principalmente na atividade agrícola, haja vista o conjunto de parceiros que o Jornal Agora buscou para concretizar o primeiro suplemento rural – o Agora Rural – porta-voz do segmento socioeconômico agrícola, o mais importante no contexto regional.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 26-07-1988

Mudança de perfil

Walmir Rosário

Serenada a tempestade com a liberação de centenas de contratos de financiamento para a lavoura cacaueira, chegou a hora de corrigir os rumos do programa. Afinal, até as autoridades reconhecem que somente cerca de 30% dos cacauicultores terão acesso ao crédito do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia, o que, convenhamos, é uma quantidade inexpressiva tendo em vista o largo alcance econômico e social previsto.

Na primeira reunião do Grupo de Supervisão do Programa, realizada nos meados de abril, aqui na sede da Ceplac, a preocupação era a de liberar o crédito com mais pressa possível, para que sejam conseguidos resultados positivos. Aqui, o Grupo visitou as instalações da Ceplac, o biolaboratório de produção do fungo antagônico, a biofábrica e uma fazenda de cacau que executa o programa. Ainda é muito pouco para se avaliar.

Temos convicção que o assessor especial do Ministério da Fazenda, Gerardo Fontelles, tem consciência que os obstáculos ainda não foram superados e que não navegamos em céu de brigadeiro. Afinal, quem melhor do que o próprio Gerardo Fontelles para conhecer os estragos provocados pela vassoura-de-bruxa em nossa região? A nossa sugestão é que, na próxima reunião do Grupo de Supervisão, sejam visitadas as mesmas fazendas anteriormente mostradas ao dr. Fonteles, para que ele ficasse ciente dos prejuízos provocados pela vassoura.

Como um homem sensível, um técnico capaz de propor soluções para os problemas, por certo ele concordará em rever essas fazendas. Nesta mesma viagem nossos representantes também poderão mostrar o que está acontecendo com as áreas tradicionais de cacau, as primeiras plantadas e nos solos mais férteis. Aqueles que por não atender exigências do programa, como possuir 500 cacaueiros por hectare, ficam fora do programa, aumentando a fonte de pressão do fungo da vassoura.

Nesta mesma visita, nossas autoridades financeiras do BNDES, Tesouro Nacional, Ministério da Agricultura, Fazenda e outros tantos órgãos, tomarão conhecimento que, caso persistam determinados entraves, nossas terras mais férteis serão todas plantadas com cofe conillon, nem que para isso seja necessário derrubar a Mata Atlântica. Quando isso acontecer, perderemos nosso abençoado bioma, meio ambiente que nos protege e os poucos mananciais de água que nos restam.

Nada contra temos em relação às roças de café, cultura que garante um lucro bem amior do que o cacau. Mas não podemos ser coniventes com a situação de serenidade que querem nos mostrar. Não podemos desconhecer verdadeiros oásis no meio do deserto causado pela vassoura-de-bruxa, pelo contrário, nossa intenção é que cada vez mais os cacauicultores excluídos possam fazer parte dessa elite que pode frequentar a carteira agrícola do Banco do Brasil.

Queremos fazer valer o direito de todos serem protegidos  pelo nosso meio ambiente. Queremos que todos possam ter acesso aos clones tolerantes e mais produtivos. Queremos que todos sema tratados como cidadãos de primeira classe. O que, convenhamos, não é exigir muito.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 01-05-1999

E Geraldo derrotou o PT…

Walmir Rosário

A arrogância e prepotência própria dos coronéis da política interiorana do início do século passado incrustaram em Geraldo Simões após sua permanência no poder. Não sei bem como qual nome científico mais adequado para isso, mas posso assegurar que tal prática é maléfica ao comportamento e a perfil dos políticos, e pior ainda para o povo, para a Nação.

Determinados membros do Partido dos Trabalhadores, cuja proposta inicial era a implantação da ética e moralidade na política brasileira, se desviaram de seus propósitos, abandonaram os dogmas contidos nos seus estatutos, copiaram, de forma desavergonhada, nas práticas que abominavam. Passaram de guardiões da moralidade a praticantes das mesmas mazelas por eles denunciadas, só que feitas com mais intensidade.

Na economia, essa voracidade famélica poderia ser explicada através do princípio da demanda reprimida, transpostas para o campo da ética por Geraldo Simões durante a sua primeira administração da Prefeitura de Itabuna. Os “meninos” que promoviam badernas para reclamar, apedrejando ônibus, entupindo fechaduras com cola araldite e massa plástica, se mudaram para os palacetes do Góes Calmon. Em volta das piscinas e whisky on the rocks as análises passaram a ser vistas por outro prisma, naturalmente de forma conservadora, mas confortável, e à bordo de carros luxuosos, os New Civic de hoje.

Aconselhados pela classe conservadora e pelos efeitos etílicos do mais puro malte das montanhas escocesas – com o reforço de uma legítima vodca russa –, a “república sindicalista” foi revestida de luxo e riqueza, rasgando os escritos de Karl Marx e condenando a mais valia ao fogo do inferno. Nada como os encantos da burguesia, principalmente quando se chega à condição de new rich.

Aos poucos, os companheiros das greves da Ceplac foram sendo defenestrados, talvez por não saberem como se comportar nas mansões e os operários de campo, auxiliares de serviços gerais, dentre outros piqueteiros foram substituídos pelo todo-poderoso Geraldo Simões pela fina flor da cacauicultura. Pela mão providencial de Martinelli, foi introduzido aos salões da nobreza, deixando de fora a plebe ignara.

Do alto da montanha, não dava mais para mirar, como antigamente, os velhos companheiros, estes perifericamente afastados. Os tempos são outros. Ao invés da força bruta dos piquetes, Geraldo Simões, o então prefeito, passou a se utilizar das artimanhas do poder dominante. Aos poucos, os Giltons, Veridianos, foram sendo substituídos pelos espertos doutores, ávidos para continuar encastelados no poder.

Mesmo conhecendo a derrota nas urnas, Geraldo foi incapaz de fazer uma reflexão para saber onde errou, fazer um mea culpa, reunir antigos colaborados, refazer seu exército. Mas não, preferiu os novos amigos, estes com mais experiência de vida e palavra fácil, capazes de massagear o ego do chefe com elogios fáceis e tapinhas nas costas. Não há quem resista!

E mais cabeças foram sendo cortadas. O “colégio de cardeais” petista passou a ostentar nomes conhecidos da velha oligarquia antes conhecida e combatida, e assumiram cargos importantes. Rei morto, rei posto, e Nelson Simões, Eliezar Correia, Everaldo Anunciação, Josias Gomes, tiveram seus nomes lançados no rol dos degredados. Sem qualquer explicação, deixaram de ser considerados da turma de “minha pedinha”.

Generais de outros exércitos tiveram de despir os velhos pijamas listrados para integrar o staff geraldiano. A cada reforço recrutado em Salvador e Brasília, mais uma cabeça interiorana rolava. E os reflexos foram sendo sentidos nas bases, notadamente entre os ceplaqueanos, responsáveis pela rápida ascensão do técnico agrícola em político influente e consequentemente uma das mais promissoras fortunas da Bahia.

Relegados ao degredo pelo Politiburo de Geraldo Simões, aos poucos seus desafetos foram sendo reabilitados. Ao assumir a Presidência do PT em Ilhéus, Eliezer Correia foi responsável pelo crescimento do partido. Everaldo Anunciação é hoje um dos homens fortes da candidatura de Walter Pinheiro em Salvador. Nelson Simões braço-direito do governador Jaques Wagner, e por aí afora…

O desafeto maior de Geraldo, Josias Gomes, foi, sem dúvida, o deputado federal mais atuante do Sul da Bahia, somente podendo ser comparado com o médico ilheense Jorge Viana. A disposição de trabalho de Josias no projeto de implantação do PT na Bahia despertou um sentimento de inveja e ciúmes ao vislumbrar uma ameaça ao seu projeto político individualista. Mesmo fora da Presidência estadual do PT, Josias continua sendo o homem de mais prestígio entre lideranças e militância no estado.

Ao desprezar todos os militantes petistas da Bahia, lançou seu último empreendimento da política coronelista, ao impor sua mulher como candidata a prefeita de Itabuna. Pela primeira vez os petistas se rebelaram e não seguiram a orientação partidária e o PT votou contra o PT, apesar da questão fechada.

Por último, Geraldo pensou que desafiaria a maioria do povo, inclusive o governador do Estado, que se posicionou contra a candidatura de Juçara Feitosa, pensando que voltaria a ganhar a eleição. Errou por prepotência, prejudicou o PT por arrogância. Manda a lei natural que cada um pague por seus pecados, como diz o ditado… “a justiça tarda mais não falha”.

E assim, assistindo a reabilitação e o crescimento dos desafetos, Geraldo Simões ainda vai ter que devolver “sua Secretaria da Agricultura” para o governador e ainda aturar seu ex-assessor parlamentar na Assembléia Legislativa, José Sérgio Gabrielli, hoje presidente da Petrobrás, ser lançado candidato ao Senado na vaga pretendida por “minha Pedinha”. Será o tiro de misericórdia. Ao derrotar o PT, Geraldo também será atingido.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 11-10-2008

PAC do Cacau – adjetivos, advérbios e conclusões

Walmir Rosário

Indignação! Não poderia ser diferente a reação dos cacauicultores em relação ao tão propalado PAC do Cacau. O que era para ser solução se tornou desespero, fazendo correr rio abaixo todas as expectativas depositadas num plano que atendesse às necessidades dos produtores de cacau, endividados ao extremo.

Frustração! Todas as esperanças, como num conto de mágica, se desvaneceram, e os sonhos de uma nova cacauicultura foram transformados em pesadelo. Mais uma vez é colocado um obstáculo no caminho dos produtores na luta contra a vassoura-de-bruxa, como se não bastassem os já existentes.

Injustiça! É a única conclusão possível, reforçada pelo mea-culpa feito pela Ceplac, através da Nota Técnica, reconhecendo a ineficácia das recomendações constantes do pacote tecnológico. E a tudo isso foi dado e passado recibo, embora as autoridades governamentais façam hoje ouvidos de mercador.

Afronta! Não é de hoje que o produtor de cacau é tratado como um Perdulário, daqueles que acendem charutos com notas de 500 mil réis, entre uma dose de whisky e um cheiro no congote da quenga no Bataclan de Maria Machadão. Coitado do Jorge Amado, não sabia quanto mal causaria à imagem do cacauicultor, muito embora o seu estilo literário tenha sido inspirado na ideologia comunista que admirava.

Raiva! Parece ter sido – pelo menos deixa a entender – esta a herança que caberá aos próceres petistas, que não souberam (e ainda não sabem) distinguir ficção da realidade. Por fidelidade a uma ideologia já comprovadamente obsoleta, o esquerdismo festivo e inconsequente, eles provocam a destruição de uma lavoura responsável ainda potencialmente capaz de diminuir a miséria numa região com quase dois milhões de pessoas.

Desprezo! Somente se explica esse tratamento infame dispensado aos cacauicultores a um trauma ideológico de quem passou anos a fio tentando prejudicar a maior matriz econômica regional. Os socialistas de ontem, agora vivendo na bonança e tendo todas as suas necessidades satisfeitas, não conseguem ter a grandeza de semear a concórdia e ganhar a confiança daqueles que têm muito pouco ou nada.

Repulsa! Quem chega ao poder e continua a agir como perdedor não merece a vitória. Só faz jus a ela quem é capaz de dispensar tratamento igualitário àqueles que produzem com dignidade. Sadismo e vingança só apequenam a quem os pratica.

Ódio! Sintoma de pequenez mental que impede a superação de conflitos passados. Com a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética, essa ideologia do autoritarismo e da violência deveria ter sido revista. Mas não, continua latente. É triste ver o quanto os progressistas de ontem se transformaram nos conservadores de hoje.

Empreendedorismo! Como se não bastassem todos os revezes sofridos ao longo dos anos, causados pelo que aconteceu do lado de dentro da porteira, os cacauicultores também têm que superar as dificuldades existentes fora dela, impostas pela burocracia estatal. Todos esses percalços, entretanto, não fazem desvanecer o espírito do cacauicultor, sobretudo pelo seu apreço ao seu trabalho.

Superação! Dólar baixo, insumos em alta e o grande endividamento causado pelos altos custos dos serviços da dívida, além da mão-de-obra cara, sempre foram obstáculos superados pelo cacauicultor. Só que agora – e ele não esperava por isso – ele tem que lutar contra a oposição ao sistema produtivo de sucesso, como se praticar o capitalismo fosse pecado ou crime contra a humanidade.

Liberdade! Na democracia a verdade tem de ser absoluta e a liberdade tem de pairar, soberana, acima de todos os interesses, sejam eles políticos, econômicos ou sociais. Acima de todas as divergências ideológicas devem prevalecer a inovação tecnológica, a livre concorrência, a geração de riquezas e a promoção do bem-estar social.

Livre pensamento! Ficam aqui, a título de sugestão, os ensinamentos de Immanuel Kant, em O que é o esclarecimento: ”…Ouço, agora, porém, exclamar de todos os lados: não raciocineis! O oficial diz: não raciocineis, mas exercitai-vos! O financista exclama: não raciocineis, mas pagai! O sacerdote proclama: não raciocineis, mas crede! (Um único senhor no mundo diz: raciocinai, tanto quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!). Eis aqui, por toda a parte, a limitação da liberdade.”.

Abdicação! Por tudo isso se conclui que não basta apenas (e exclusivamente) ao cacauicultor cuidar da produção, atendo-se à obtenção do poder econômico, mas racionar sobre a necessidade de deter também o poder político. Do contrário, continuará hoje, como antes, à mercê de discursos eloquentes, mas ardilosos. Discursos feitos, sobretudo, com a intenção deliberada de ludibriar, induzindo os mais crédulos a permanecer cometendo erros históricos, inclusive o mais perigoso deles: delegar poderes a quem se comporta como inimigo.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado na edição do Jornal Agora de 09-08-2008

Estimular o debate

Walmir Rosário

Curiosamente, a região cacaueira não é afeita ao debate, principalmente quando o tema nos interessa. Até agora, os principais segmentos da cadeia produtiva do cacau não se manifestaram quando ao documento elaborado pelo Grupo Temático Cacau, do Fórum Nacional da Agricultura, e entregue ao Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em 3 de setembro próximo passado.

Os mais acomodados podem indagar: o documento não foi exaustivamente debatido pelos diversos setores da sociedade organizada? Claro que os organizadores percorreram milhares de quilômetros pelas estradas das regiões cacaueiras da Bahia, Pará, Amazonas e Rondônia. E nós agricultores, participantes dessa sociedade, pessoas diretamente interessadas no nosso futuro? De nada sabemos, pois nada queremos.

Será que basta a nós discutirmos somente o ataque da vassoura-de-bruxa, reclamarmos da Ceplac por não ter distribuído mudas tolerantes à doença e de alta produtividade, como se da noite para o dia tudo fosse resolvido como num passe de mágica? Claro que não. É preciso nossa participação se quisermos fazer nosso próprio futuro.

Enquanto isso, outras regiões agrícolas do Brasil estão preocupadas em formular propostas, exigir compromissos que beneficiem suas corporações aos seus representantes. Salvo uma ou outra ação isolada, não se tem notíciade que nossos líderes tiveram essa preocupação. É preciso ter em mente que não se pode cobrar compromissos de quem não os tenham assumidos. Ainda mais quando eles são de difícil execução.

Enquanto nós assistimos passivamente “chorando o leite derramado”, outros setores da economia estão falando por nós, mesmo sem ter conhecimento de causa. Até agora, a única voz que se levantou para rebater os estudos equivocados realizados pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) foi a de José Haroldo Castro Vieira, o ex secretário-geral da Ceplac, e profundo conhecedor da economia cacaueira.

Por incrível que pareça, não ouvimos outra voz, nem mesmo das pessoas que, por dever de ofício, deveriam ter se manifestado. Talvez estivessem absortos com outras ocupações mais importantes do que as do cacau, atividade cheia de problemas. Talvez estivessem acompanhando os passos dos recursos destinados ao Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira.

Após 200 anos de implantada a cacauicultura na Bahia ainda vivemos submetidos a um regime de “escravidão branca”, obedecendo cegamente aos compradores, assim como fazíamos no início deste século, obrigando-os a comprar no barracão da fazenda. Saldo, nem por sonho.

Antes, ainda tínhamos a  opção de entregar nosso cacau para o exportador mais amigo, que pagava mais. Agora, nem esse direito nos dão, pois somente existem três ou quatro multinacionais operando nesse ramo.

A voz de José Haroldo também se levantou contra um documento, um bonito livro intitulado “Bahia ano 2000, editado em português e inglês, apresentando 183 excelentes fotos da paisagem baiana, seus casarios, igreja, suas praias e ladeiras, seus artesanatos, suas indústrias e seus produtos agrícolas. Entre melões e mangustões, uvas e tomates, mangas e cenouras, página dupla de pimenta-de-cheiro e dezenas de outras frutas e legumes, até de procedências asiáticas e europeias, nem uma foto do cacau, fruto que deveria ser o símbolo da Bahia, pois sustentou seu desenvolvimento praticamente sozinho…”, adiantou José Haroldo em artigo publicado nesta edição do Agora Rural.

Está na hora de corrigirmos nossas falhas.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora Rural em 27-09-1998

O prefeito e o povo

Walmir Rosário

Uma cena do programa eleitoral gratuito exibido na televisão me chamou a atenção. Não que ela seja especial, mas pela empáfia do candidato à reeleição pelo PT de Itabuna, Geraldo Simões. Enquanto milhares de pessoas vivem à margem da miséria, grande parte deles passando fome, o prefeito Geraldo Simões aparece numa mansão cinematográfica de sua propriedade, tomando um lauto café da manhã.

Claro que o prefeito Geraldo Simões tem todo o direito de viver bem, comer bem, subir na vida, o que têm feito com grande maestria, e isto está mostrado no rol de suas propriedades, que inclui outra mansão da praia ilheense (Luzimares), apartamento em Salvador e por aí afora. Como um administrador de empresas deve ter aprendido como ganhar dinheiro e guardá-lo, aplicando em bens de grande retorno.

É certo que durante o tempo em que passou trabalhando na Ceplac não chegava a receber um polpudo salário, sempre defasado, e tanto que, para repor essas perdas salariais, o então sindicalista Geraldo Simões promovia uma greve em cima de outra. Só assim o pessoal do governo resolvia se sensibilizar aos reclames dos trabalhadores. Até hoje os governos agem assim, seja em nível federal, estadual ou municipal.

Mas ao entrar na política, a situação mudou e o prefeito Geraldo Simões deu uma demonstração de competência e passou a acumular bens, o que lhe permite usar e gozar deles, amealhando ao longo desses anos. Entretanto, para um homem público, a ostentação de riqueza não é um bom negócio, pois o eleitor passa a se achar muito distante, causando prejuízos irrecuperáveis na urna.

Na minha santa ignorância (ou burrice científica), talvez eu não tenha a percepção de que um representante do povo, o prefeito de Itabuna tenha agido com as melhores das intenções, no sentido de educar a população para os hábitos alimentares sadios e as boas maneiras à mesa. O que há de se reclamar de uma fausta refeição matinal ingerida pelo prefeito Geraldo Simões? Afinal, como representante do povo, conclui-se que ao ver ele se alimentar, todo povo sinta-se de barriga cheia. Nada mais natural.

O que não se pode perder de vista é que, para ganhar a campanha eleitoral, o prefeito Geraldo Simões, que não se encontra confortável na preferência popular, gasta rios de dinheiro para conseguir seu intento. Uma das primeiras ações cometidas por sua coligação foi poluir visualmente a avenida do Cinquentenário com a propaganda eleitoral. Em toda a cidade não há um poste ou arame entre postes que não ostente os sinais da opulenta publicidade.

Como munícipe, isso me causa certo constrangimento, principalmente ao comparar o atual estado de sujeira que se encontra a cidade. O lixo é depositado em cada esquina sem a menor cerimônia e até hoje não se viu qualquer tipo de campanha educativa neste sentido. Num flagrante desrespeito à Constituição Federal, o prefeito prefere fazer propaganda de asfaltamento com lama asfáltica em cima da pavimentação já existente, uma estratégia utilizada para burlar a legislação.

Os pobres de Itabuna, que não são poucos, agradeceriam se parte dos recursos utilizados pela campanha de Geraldo Simões em sua rica propaganda fosse destinada a programas sociais, beneficiando essa gente desempregada. Não se trata de distribuir cestas básicas, com a nítida intenção de comprar votos, mas de investir na geração de emprego e renda. Ajuda decente como manda os princípios éticos e religiosos.

Não basta tratar todos como irmãos, tem que agir como irmão, ensinar a pescar, oferecer condições dignas de vida. Não será com o assistencialismo eleitoreiro que o itabunense há de se orgulhar de sua cidadania.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 28-08-2004

Crédito de confiança

Walmir Rosário

Não existe a menor sombra de dúvida que a mudança da diretoria da Ceplac trará resultados positivos para a instituição e para a lavoura cacaueira do Brasil, sobretudo a baiana. Meu raciocínio parte do princípio de que toda mudança, quando bem-feita, é benéfica. No caso da Ceplac, a expectativa é que o novo diretor acabe com o marasmo que tomou conta da instituição, reconduzindo aos trilhos a locomotiva da produção de conhecimento.

Como diz o ditado popular, pior não pode ficar. Portanto, basta traçar um programa de trabalho mínimo, um simples feijão-com-arroz, para que os primeiros resultados sejam notados. Exemplo disso é o que não falta. E a estratégia do momento parece-nos ser a elaboração de projetos e programas possíveis de serem executados a médio e curto prazo.

Principalmente quando se trata de órgão público, cujas metas normalmente fazem parte de um programa de trabalho e um orçamento prévio devidamente aprovado, não há muito segredo em termos de administração. As invenções não fazem sentido, até porque a administração pública é feita dentro de limites bem definidos, a não ser em casos muitos especiais, como calamidades e coisas similares.

E o novo diretor da Ceplac, Jay Wallace, causou boa impressão aos diversos segmentos da cadeia produtiva do cacau do Sul da Bahia. Se antes alguns setores o viam com desconfiança por sua origem fora das fronteiras regionais (é paraense), o conhecimento e a segurança que demonstra em relação aos problemas da Ceplac e da cacauicultura fez ruir barreiras.

É preciso também levar em conta que a indicação de Jay Wallace teve o aval de setores importantes da Ceplac sul-baiana e da esmagadora maioria dos políticos do Norte do País, cuja mobilização deveria servir de exemplo para nós (cadê a nossa tão lembrada bancada do cacau?).

E para quem espera uma guinada repentina na atuação da Ceplac, com prioridade maior para médios e grandes produtores (os que restaram), é preciso lembrar que Jay Wallace já teve o cuidado de dizer que a direção do órgão mudou, mas o Governo Federal, não. E disse isso para demonstrar que a instituição seguirá a política agrícola do Governo Lula, fornecendo uma assistência técnica diferenciada à agricultura familiar. Não temos nada contra essa opção, é bom que se diga, mas é preciso entender que a Ceplac, órgão responsável pela extensão e pesquisa do cacau, não pode delegar a renovação da cacauicultura exclusivamente aos produtores.

Competência para isso eles já demonstraram que têm, mas necessitam do desenvolvimento de novas tecnologias, uma atribuição intransferível da Ceplac. Sabemos que as dificuldades enfrentadas pela instituição são muitas: a extensão rural padece de uma crônica escassez de profissionais, sejam eles engenheiros agrônomos, médicos veterinários ou servidores das chamadas atividades-meio. Pela falta deles, inúmeros escritórios locais estão fechados.

O diretor da Ceplac alerta que os métodos de assistência técnica rural mudaram e que hoje não é mais recomendável a forma individualizada de antigamente. Uma realidade já admitida antes, tanto que a própria Ceplac, anos atrás, já adotara essa estratégica criando um setor de comunicação institucional no antigo Departamento de Extensão [hoje Cenex].

À época, destacados profissionais de comunicação do Sul da Bahia foram contratados e formaram, junto com extensionistas, pesquisadores e educadores, a maior rede de comunicação de uma instituição do gênero. Só que o sucateamento do órgão promovido no Governo Collor esfacelou essa importante ferramenta de convencimento e difusão de tecnologia.

Portanto, não há nenhuma novidade nas soluções necessárias para colocar a Ceplac no mesmo nível de eficiência que desfrutou no passado. Mas não bastam apenas bons propósitos e programas factíveis. É preciso, sobretudo, garantir a correta operacionalização dos projetos e programas que vierem a ser elaborados.

Atualmente, talvez a maior carência da Ceplac seja a falta de comprometimento do próprio Estado para com a instituição, renovando seus valores, reativando missões e metas. É o que falta para o órgão atuar eficientemente e voltar a ser visto de forma positiva pela sociedade. Esta não é uma missão impossível e pode ser implementada em tempo relativamente curto, bastando, para tanto, apenas vontade política.

Mas para alcançar tal objetivo é preciso realizar um diagnóstico completo e pôr em prática medidas que contemplem todos os segmentos envolvidos na retomada do desenvolvimento institucional. Não basta privilegiar setores, mas buscar a eficiência de forma holística, através de cada elo da cadeia produtiva.

Uma das primeiras atitudes que deve ser tomada pelo novo diretor é unificar os objetivos e estratégias da pesquisa e extensão rural, principalmente quanto à difusão de tecnologia. Afinadas, por certo as orientações técnicas chegarão ao produtor de forma clara, prontas para serem assimiladas pelos agricultores.

Outra atitude imprescindível é a revitalização da instituição, através de contratação de profissionais para a pesquisa e extensão, o que até agora parece não ter merecido atenção especial do Governo Federal. Sem profissionais com experiência comprovada, não há como executar os programas.

Outro importante ponto, a valorização profissional, não deve se restringir apenas aos pesquisadores e extensionistas [fiscais federais], cuja situação salarial foi revista recentemente e colocada em parâmetros aceitáveis (embora o mesmo não se possa dizer quanto aos profissionais de outras graduações, também imprescindíveis à geração e difusão de tecnologia).

A verdade é que os funcionários da chamada atividade-meio, essenciais para o funcionamento do órgão, ainda não mereceram a devida atenção por parte da direção da Ceplac, permanecendo como uma espécie de “sub-raça de ceplaqueanos”, digamos assim, cujas agruras salariais não sensibilizam ninguém. É preciso que os dirigentes da Ceplac reconheçam que sem o jornalista, o contabilista, a bibliotecária, o motorista, a secretária, o escriturário ou o operário de campo não há pesquisa que apresente resultado, muito menos assistência técnica que atinja o produtor rural. É inadmissível constatar que vários desses funcionários de nível intermediário e auxiliar, mesmo sofrendo de doenças graves como o câncer, sejam obrigados a abrir mão do plano de saúde e mendigar a ajuda de terceiros por não poderem arcar com as mensalidades cobradas pelas seguradoras.

Voltando ao novo momento vivido pela Ceplac: ultrapassada a barreira do regionalismo exacerbado e a condição alienígena do diretor, resta apenas e tão-somente a ele a incumbência de pacificar os ânimos, escolher colaboradores comprometidos com a Ceplac e que não rezem pela cartilha de políticos nefastos. Ao mesmo tempo, espera-se dele a competência para aglutinar apoios políticos dos mais diversos partidos, inclusive da bancada baiana do cacau, a fim de materializar os planos que certamente tem para mudar a Ceplac.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 16-08-2008

 

Líderes não fogem à luta

Walmir Rosário

Muito se tem discutido sobre a cobrança, via judicial, do imposto sindical pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb), inclusive na lista cacau. Entretanto, ninguém atentou para a questão política que o caso requer, e somente para o dever do agricultor pagá-la.

A legislação é clara e manda os sindicatos cobrar dos agricultores e, através da Caixa Econômica Federal, o pagamento é repassado mensalmente para os entes de direito, no caso em questão, 5% para a CNA, 15% para a Faeb, 60% para o sindicato respectivo, e 20% para a Conta Especial Emprego e Salário, do Ministério do Trabalho.

Acredito que a questão essencial é saber quem tem o direito de ir à Justiça para buscar o pagamento judicial, e esse direito pertence somente aos sindicatos. Apesar desse garantido por lei, não foram os sindicatos rurais que pediram a proteção do Poder Judiciário para satisfazer suas pretensões, e sim a CNA e a Faeb.

Como já se tornou praxe, os presidentes de sindicatos rurais de diversas cidades baianas preferiram se omitir, como costumeiramente fazem, e outorgaram procuração para que a CNA e a Faeb pudessem resolver seus problemas. E os dois órgãos, mais afastados das bases sindicais, o fazem sem a menor cerimônia.

Tal como Pilatos, as “lideranças” sindicais lavaram as mãos e se omitiram do mister conferido por lei. Derraparam feio os presidentes de sindicatos rurais que resolveram abrir mão de suas prerrogativas, voltando ao comodismo de sempre. Nada fazem nem querem fazer e ainda por cima ficam com raiva de quem faz.

No mundo globalizado, onde as decisões tomadas no hemisfério norte trazem reflexo imediato para os mais distantes grotões, e no sul da Bahia não é diferente, com os preços do cacau refletindo diretamente sobre as oscilações das bolsas de Nova Iorque e Londres, além de outros fatores. E aí é onde entra a representação classista dos produtores, hoje combalida e carente de líderes dinâmicos.

Dinamismo, sim, é o que precisa a região, onde a maioria dos sindicatos rurais funcionam aos trancos e barrancos, sem eleições abertas, sem participação dos filiados, que na verdade não se sabe (menos o presidente, é claro) quantos são. É esta a triste realidade do quadro sindical econômico, com raríssimas exceções, às vezes consideradas destoantes.

Lideranças de verdade são forjadas na lida diária entre a classe, discutindo idéias, debatendo os problemas, mobilizando os colegas, e não às portas fechadas, na calada da noite, realizando eleições na base do lápis e borracha. Verdadeiros líderes não abrem mão de suas prerrogativas, não se escondem, não fogem à luta, e nem por desídia delegam os afazeres a outras instâncias.

Líderes de verdade não usam dois discursos, soltando-os de acordo à situação conveniente. Quem repudia a cobrança de taxas, não tem o direito de taxar, ou exigir o cumprimento delas, sobretudo se tais cobranças tragam alguns pressupostos, como a oneração dos produtores, sob qualquer hipótese, como foi lavrado em documento entregue ao Governo Federal pela Faeb e CNA.

Líderes de verdade lutariam pela publicação da Nota Técnica a ser elaborada pela Ceplac, conforme compromisso assumido pelo seu diretor, e até agora não cumprido. Líder de verdade teria capacidade de mobilizar os companheiros, mostrando a necessidade de manter uma estrutura sindical forte e importância dos recursos financeiros para tanto. Um estágio dessas lideranças num sindicato de trabalhadores faria bem a toda a cadeia produtiva.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 11-06-2004

 

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Rio do Engenho, cachaça de Ilhéus para o mundo
 
Atualmente, a Rio do Engenho produz cinco variedades de cachaça. A prata, mais rústica, sem ser envelhecida, descansada em alambiques de aço inox por seis meses e um forte sabor de cana; a Rio de Engenho Black; a Ouro e a Acqua Benta, envelhecidas por dois anos; e a Reserva, tipo especial, envelhecida por três anos.
 
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A Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Secult) divulgou o resultado da seleção pública de projetos de Demanda Espontânea. O número de projetos inscritos e a qualidade das propostas apresentadas levaram a Secult a buscar um aumento no valor dos recursos, de forma a contemplar um número maior de projetos nessa seleção.
 
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Saudosismo, amizade, cachaça da boa, cerveja bem gelada, mocofato preparado por Danilo, música de todos os gêneros e para atender todos os gostos. Esse foi o combustível que moveu membros da Confraria do Alto Beco do Fuxico, os acadêmicos da Academia de Letras, Artes, Música, Birita, Inutilidades, Quimeras, Utopia e Etc. (Alambique), além de outros frequentadores do Alto Beco do Fuxico.
 
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