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Inovação no cacau da Mata Atlântica

Eduardo Athayde-400x400Eduardo Athayde*

Quando o WWI-Worldwatch Institute, na virada do milênio, publicou internacionalmente estudo sobre a mata atlântica da região cacaueira da Bahia, batizando-a de “Floresta de Chocolate”, única no mundo, onde a matéria prima do chocolate é produzida com recordes de biodiversidade no planeta, registrado pelo Jardim Botânico de Nova Iorque, a prefeitura nova-iorquina iniciava o levantamento de cada uma das suas 683.113 arvores.

Hoje, os cidadãos de Nova Iorque conhecem o valor econômico individual das suas árvores, sabem que cada uma reduz a temperatura sob sua copa em cinco graus centigrados, joga no ar 150 mil litros de água por ano e produzem serviços anuais avaliados em US$111 bilhões [tree-map.nycgovparks.org]; um padrão que está sendo seguido por várias cidades do mundo que plantam florestas urbanas visando a melhoria do ar, do clima local e da qualidade de vida dos seus cidadãos.

Com a força das redes sociais o mundo parece ter ficado pequeno e a biodiversa Mata Atlântica, antes pouco percebida (ainda não valorada), vem recebendo influencia direta dessas inovações. O Centro de Inovação do Cacau (CIC), por exemplo, que será inaugurado esta semana na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus, é a parte concreta do projeto do Parque Científico e Tecnológico do Sul da Bahia, idealizado conjuntamente pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Ceplac, Uesc, Secti, Instituto Arapiaú e outras instituições.

Focando a cadeia produtiva do cacau e a economia florestal, o CIC, formado por acadêmicos e empresários, analisará propriedades físico-químicas do cacau e do chocolate, a qualidade de sementes e mudas das biofábricas de essências da mata atlântica, fomentando a indústria do reflorestamento que, cobiçada por investidores, floresce impulsionada pelo robusto mercado financeiro internacional interessado em ativos florestais.

Na era da “eco-nomia”, oficializada pelo Acordo de Paris e já legalmente adotada pelo Brasil, a preservação, além de uma imperiosa necessidade, passou a ser analisada também por parâmetros econométricos da precificação e monetização (restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030 – bit.ly/2cHvxT8). Observando o senso de oportunidade o CIC nasce como elo local desta inovadora rede global, posicionando-se, com linguagem nova, como uma especie de “porta USB” de alta velocidade aberta a conexões de pesquisa, geração de conhecimento e econegócios.

Integrado a iniciativas como a Plataforma Brasileira sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (bpbes.net.br), que tem a missão de produzir conhecimento cientifico e saberes tradicionais sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos – onde o cacau se inclui – o CIC nasce como parceiro natural do Programa FAPESP de Pesquisa em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA-FAPESP), apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e alinhado com a

Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que lançou a Campanha da Fraternidade 2017 com o tema “Biomas Brasileiros e a Defesa da Vida”.

A imaginação é mais importante que o conhecimento, afirmava Albert Einstein. Nesta linha, a Fazenda Futuro, localizada em Buerarema, base das pesquisas do WWI no final do século passado – e agora cliente do CIC – está sendo usada por pesquisadores parceiros do WWI, da floresta urbana de Nova Iorque e do Smithsonian Institute como referência para um projeto piloto de fazenda do futuro, conectado com universidades e centros de pesquisas do mundo.

Com a quebra de fronteiras e os espaços abertos pelas redes sociais, a região cacaueira, imaginada como Floresta de Chocolate, vive um momento de mudanças intensas observadas na metáfora da crisalida, quando a lagarta não mais existe, e a borboleta ainda não nasceu.

*Diretor do WWI-Worldwatch Institute. eduathayde@gmail.com

Ceplac e a síndrome da Gabriela

Editorial do Jornal Agora, publicado sexta-feira (24-02-17)

Se nada tivesse dito além de admoestar os dirigentes da Ceplac na Bahia quanto à síndrome da Gabriela que acomete aquele órgão federal, o secretário estadual da Ciência, Tecnologia e Inovação, José Vivaldo Mendonça, já teria cumprido um bom papel durante a solenidade de comemoração dos 60 anos do departamento que cuida do cacau no Brasil, registrados na segunda-feira (20).

Disse Vivaldo (não literalmente): “A Ceplac precisa deixar a síndrome da Gabriela – ‘eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim’”. A citação à icônica personagem de Jorge Amado é uma referência à “Modinha para Gabriela” (1975), composição de outro gênio baiano, Dorival Caymmi, imortalizada na voz da diva Gal Costa.

Pois bem. Nunca antes na história da Ceplac houve uma reação tão forte contra um diretor, como o ataque que se verifica contra Juvenal Maynart nas últimas semanas. Em apenas uma ação, pelo menos três interesses estão em jogo: o do presidente do PMDB, Pedro Arnaldo, por motivos pessoais – segundo o próprio confidencia a interlocutores. O de um grupo de ceplaqueanos, notadamente de alguns auditores fiscais federais – os que antes eram identificados apenas como “os agrônomos” e eram os “donos” do órgão. E, por último, aquela conhecida reserva de mercado do corpo diretivo da Ceplac, que, ao contrário do servidor comum, rejeita tudo o que não é ele mesmo. Nesse caso, a síndrome é outra, de Narciso.

O pano de fundo é a manutenção de um espaço físico, o prédio do Centro de Extensão (Cenex), que os auditores fiscais federais estimulam servidores e dirigentes sindicais e representantes de entidades de funcionários, a “defenderem” contra a “sanha” de Juvenal. Afirmam que o diretor é insensível ao sentimento de pertencimento que eles têm ao prédio, a casa a partir de onde a Ceplac expandiu suas fronteiras, nos idos dos anos 1960, levando a tecnologia produzida pelo Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec).

O prédio em questão tem quatro mil metros quadrados – usando a “medida-padrão” da Rede Globo, seria equivalente a quatro campos de futebol – e ali já trabalharam 200 servidores, nos tempos áureos. Hoje são 71. Desses, porém, apenas 32 são ligados à atividade-fim. Os demais são do setor burocrático, agentes de portaria, de transportes etc., e serão todos remanejados para outros postos, a partir da centralização administrativa promovida pelo Ministério da Agricultura – lembremos que a Ceplac foi transformada em um departamento, na gestão do último diretor, Sérgio Murilo, por sinal um grande opositor de Maynart nesse processo.

Calma que ainda reduz mais: dessas 32 almas, duas estão de saída. Uma será cedida à Justiça Eleitoral e outra está assumindo um cargo no governo estadual. Ficaria, portanto, o prédio do Cenex, habitado por apenas 30 bravos extensionistas – auditores fiscais federais e agentes de atividades agropecuárias, os antigos técnicos agrícolas.

Ora, num momento em que o país clama por boas práticas e que sejam observados ao máximo os princípios da economicidade, da eficiência e da razoabilidade na administração pública, é no mínimo uma demonstração de bom-senso apoiar a transferência desses guerreiros de outrora a um novo espaço, menos dispendioso para os bolsos do cidadão-contribuinte. Deem-se-lhes as medalhas e comendas merecidas. Mas, não estimulem essa grave síndrome que acomete a nossa velha senhora da cacauicultura.

Também publicado por: http://www.otrombone.com.br

Redescobrindo o Sul da Bahia

WALMIR-ROSÁRIO-FOTO-WALDYR-GOMES1-150x150Walmir Rosário*

Em meio à inundação de notícias desconstitutivas sobre o Brasil como um todo, começamos a vislumbrar que a região do cacau, finalmente, começa a nos mostrar alguma coisa de boa, útil e produtiva. Trata-se da implantação da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) na área Ceplac, às margens da Rodovia Jorge Amado.

Finalmente, a razão, a inteligência e o bom senso conseguiram superar o atraso, o corporativismo maléfico, o provincianismo, as ideias retrógradas, a pequenez e o atraso. E essa tomada de atitude posso credenciar, principalmente, ao então Superintendente de Desenvolvimento da Região da Cacaueira do Estado da Bahia (Sueba), Juvenal Cunha Maynart, e o Magnífico Reitor da UFSB, Naomar Monteiro de Almeida Filho.

É a produção de ciência, de conhecimento, implantada no mesmo local que, por décadas, pesquisou e entregou à Nação Grapiúna todo um pacote tecnológico de desenvolvimento. Concebida num tripé de pesquisa, extensão e ensino, a Ceplac foi além de sua proposta inicial de prestar serviços financeiros aos cacauicultores e transformou a socioeconomia regional numa das mais eficientes do Brasil.

Não se conhecia no final da década de 50, toda a década de 60 e 70 região com uma infraestrutura igual ao Sul e Extremo Sul da Bahia. De repente, da luz do candeeiro passamos à energia elétrica; do transporte ao lombo de burros às boas estradas; das demoradas cartas ao telefone e telex; da economia precária à retomada do crescimento agropecuário e comercial.

Tudo isso foi possível com o trabalho eficiente dos técnicos da Ceplac, liderados por Carlos Brandão e José Haroldo Castro Vieira, Paulo Alvim, dentre outros. Com o passar dos anos, a Ceplac se consolida como instituição científica, muda conceitos e costumes. Como toda grande instituição, sofre com as ingerências, seu técnicos se acomodam. Um novo despertar chega com a terrível descoberta na vassoura-de-bruxa nos cacauais do Sul da Bahia.

A partir desta época, a região já carecia de lideranças capazes de aglutinar os segmentos políticos e produtores em torno de uma projeto inovador eficiente. Mesmo assim a região soube sobreviver, agora com a capacidade da iniciativa privada, formada por um novo perfil de cacauicultores, preocupados com os investimentos realizados.

Essa dicotomia permaneceu até a chegada de Juvenal Maynart à Superintendência Regional, apresentando propostas inovadoras, o que causou um certo desconforto em um grupo de servidores e a sensação de alívio para os produtores de cacau. Nada que não fosse possível administrar com o aparecimento dos novos resultados positivos.

A proposta do novo superintendente era bem simples e se calcava em premissas conhecidas no agribusiness internacional que pretende produzir com eficiência, conviver pacificamente com o meio ambiente e agregar valores ao seu produto. Essa inovação aqui já é considerada uma prática vitoriosa em grande parte do mundo.

Preserva-se o que tem, amplia-se a produção com produtividade, evita-se o ataque de pragas e doenças e promove uma defesa fitossanitária eficiente para o aparecimento de novas endemias. Entretanto, essas ações somente serão possíveis a partir do momento em que a agricultura e a ciência caminharem juntas para oferecer um produto inovador ao mercado.

E essa moderna concepção de produção só conseguirá atingir o seu alvo a partir do momento em que a ciência possuir todos os meios de transferir esse conhecimento ao produtor. Tão importante quanto a descoberta de novas tecnologias é saber “vendê-las” a um mercado ávido para “comprá-las”. E aí é que reside o nosso “calcanhar de Aquiles”.

Mesmo com toda a transferência de tecnologia já feita por instituições como Ceplac, Uesc e empresas privadas, os nossos agricultores ainda carecem, e muito, dessas ferramentas para trabalhar. Uns não têm capacidade de contratar recursos, outros não acreditam nessas inovações, e um grupo maior sequer tem conhecimento das novidades.

Daí que acredito ter sido o magistral o salto de qualidade da gestão de Juvenal Maynart na Ceplac ao abraçar e propor parceria à Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Outras existem, mas a UFSB apresenta uma proposta inovadora, que não basta fazer ciência, mas apresentar o conhecimento para todos, com uma metodologia diferente.

A UFSB, nos moldes pensados sob a liderança do Professor doutor Naomar Monteiro de Almeida Filho, oferece o conhecimento e a ciência para todos, mas prima pela formação de acadêmicos entre a população das várias cidades onde atua. Isto, sim, é a universalização do conhecimento, mudando o conceito de cidade dormitórios para estudantes.

A partir da implantação desse conceito, teremos em praticamente todos os municípios uma massa forjada na academia com capacidade de enfrentar os desafios e superar as velhas dificuldades. Na área esvaziada da Ceplac passaremos a contar com parque tecnológico atuando em quatro vertentes – Tecnologia da Inovações; Biotecnologias em Alimentos, com ênfase em cacau e chocolate; Logística, e Agroflorestais.

Nas cidades onde estão sendo implantados os Colégios Universitários, os alunos poderão cursas as matérias gerais, agora sem o esforço de enfrentar intermináveis e cansativas viagens de ônibus, o que facilitaria o aprendizado. A população como um todo ganharia, de imediato, na qualidade dos serviços, e no futuro, de uma grande massa pensante capaz de transformar a realidade.

A grande sacada é que em cada um desses colégios deverão ser implantados cursos que completem a vocação da cidade, dentro de diretrizes que apontam as matrizes econômicas e sociais de desenvolvimento. Essa simbiose entre as ações governamentais, academia e iniciativa privada darão direcionamento às atividades de pesquisa, extensão e ensino.

* Advogado e jornalista

UFSB lança projeto arquitetônico e edital de licitação do Campus de Itabuna

Na próxima segunda-feira (5), a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) fará o lançamento do projeto arquitetônico e do edital de licitação referentes à construção das instalações físicas do novo campus Jorge Amado que será localizado no terreno da Ceplac e em áreas dos municípios de Ilhéus e Itabuna, onde será a reitoria.

Para nortear o projeto, a UFSB utilizou-se de conceitos que tinham por meta não possuir um partido arquitetônico tradicional e similar ao de outras Instituições de Ensino Superior. Para isso, guiou-se pelo conceito de arquitetura das Instituições de Ensino Waldorf, que se pauta na familiarização com a natureza, história cultural e em atividades que encorajam a criatividade. Foram adotadas também, estratégias de sustentabilidade, que foram um dos eixos centrais da proposta arquitetônica e da universidade.

Foram convidados para o evento, o prefeito de Itabuna, Claudevani Leite; o prefeito de Ilhéus, Jabes Ribeiro; Câmaras de ambos os municípios e empresários da região.

A solenidade será realizada às 10 horas no atual campus Jorge Amado, localizado no bairro Ferradas, em Itabuna. Toda a comunidade está convidada para participar do evento.

O edital de licitação e seus anexos podem ser encontrados no site: http://www.ufsb.edu.br/?page_id=1625

As angústias do cacau

Walmir Rosário *

O cacauicultor deveria plantar não só cacau, mas também cultivar no seio da cacauicultura o sentimento de organização e recuperação do seu negócio e de uma região”. Essa frase, dita pelo prefeito de Canavieiras, Almir Melo, aos cacauicultores marca muito bem as angustias por que passam os cacauicultores sul-baianos.

Não se pode negar que as dificuldades com a cacauicultura são antigas e cíclicas, mas, após o fulminante ataque do fungo causador da vassoura-de-bruxa, os obstáculos têm sido maiores e permanentes.

Não é desconhecido o estrago feito pela vassoura-de-bruxa e a incapacidade dos órgãos técnicos para enfrentar uma situação de endemia na lavoura de cacau do Sul da Bahia. Sem controle, os cacaueiros infectados foram dizimados, bem como os que habitavam o entorno.

De repente, a outrora região rica se torna pobre, paupérrima sem perspectivas, colocando na “rua da amargura” mais de 200 mil pais de famílias, que foram viver em condições de miséria, inchando as favelas das cidades do Sul da Bahia.

Para tentar salvar a lavoura de cacau, a solução imediata foi buscar a aplicação de tecnologias desconhecidas, recomendadas pela Ceplac. Os resultados dessa ação desastrada são conhecidas de todos e levou os produtores de cacau à bancarrota.

Mesmo com o reconhecimento da Ceplac de que as recomendações tecnológicas foram causadoras da situação de insolvência em que se encontravam os cacauicultores, o Governo Federal fez ouvidos de mercador e não se sensibilizou para reparar um triste erro histórico.

Hoje, as dívidas contraídas pelos produtores de cacau são astronômicas e impagáveis. O Governo Federal, por sua vez, em vez de reconhecer seu erro e indenizar os cacauicultores pelos prejuízos causados em seu negócio, sequer avalia a possibilidade de anistiar essas dívidas.

Hoje, que existe tecnologia eficaz para formar uma nova e pujante lavoura de cacau, com plantas clonadas, tolerantes à vassoura-de-bruxa e de alta produtividade, os produtores rurais não tem a capacidade de endividamento.

No seu “panacum de bondades” o Governo Federal admite apenas a prorrogação das dívidas impagáveis, medida que apenas afrouxa o nó do laço que vai enforcar o cacauicultor, que precisa de dinheiro novo para continuar a produzindo.

Não bastassem as adversidades econômicas, os cacauicultores agora enfrentam, também, a insegurança jurídica, como a invasão de suas fazendas produtivas pelos integrantes dos movimentos dos sem-terra e pseudos índios.

Se forem inteligentes, continuarão a plantar cacau, mas sem o individualismo que marcou a atividade até pouco tempo, porém com o sentimento de cooperação.

Do contrário, vai continuar seguindo aquele velho ditado dito com frequência pelo homem do campo: “além da queda, o coice”. 

* Da Terra Mater do Cacau

Corrigir os rumos

Walmir Rosário

A denuncia de um pesquisador do Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec) sobre o comportamento das plantas fornecedoras de material genético para o Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia, localizadas na Biofábrica, é mais um motivo para que sejam corrigidos os rumos desse projeto. Essas plantas, que deveriam se transformar nos clones salvadores da cacauicultura baiana, estão altamente infectados pela vassoura-de-bruxa, conforme comprovou o pesquisador.

Mais uma vez queremos alertar que não temos a pretensão de nos transformar em “arauto do caos”, trazendo o pessimismo e notícias nada alentadoras em relação à cacauicultura. Pelo contrário, sistematicamente, temos procurado mostrar as experiências e os resultados positivos alcançados na clonagem de cacaueiros, no sentido de demonstrar que o cacau ainda é um bom negócio. Disso todos são testemunhas.

Entretanto, não podemos ficar calados – temos compromisso com nossos leitores e a comunidade – e esconder fatos que contrariam o bom andamento da recuperação da cacauicultura, principalmente no que toca à defesa dos cacauicultores, que depositam nesse programa todas as suas esperanças. A denúncia formulada pelo pesquisador da Ceplac é séria e deveria ser tornada pública, para o conhecimento dos interessados – os agricultores –, permitindo que eles pudessem obter material genético de outras fontes que não a Biofábrica, onde o número de vassoura de lançamento chega a 500 em algumas plantas, o que é bastante elevado, conforme avaliação dos técnicos.

O aumento vertiginoso do número de vassoura de lançamento é uma comprovação de que o procedimento normal para a multiplicação de material genético não é o centralizado, utilizado atualmente, privilegiando a Biofábrica na distribuição de mudas e garfos, e sim descentralizado, com a implantação de jardins clonais nas diversas fazendas. É preciso que as lideranças e autoridades tomem providências no sentido de mudar os rumos do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia, que privilegia o uso de insumos num “pacote fechado”, como se as condições de todas as propriedades fossem iguais.

Entre os diversos erros cometidos no programa, nós, leigos em matéria de agronomia, podemos destacar a centralização como o pior deles, principalmente se levarmos em conta a base genética estreita em que ainda está calcado o programa. O pior disto tudo é que foram rasgadas todas as recomendações contidas nos manuais elaborados pelos técnicos da Ceplac durante mais de 30 anos. Historicamente, o ensinamento da Ceplac era de que as mudas teriam que ser feitas nas fazendas, para evitar uma série de transtornos, entre eles a falta de aclimatação e a interação ao meio ambiente. Será que teremos que jogar fora todo um cabedal de conhecimento adquirido ao longo desse tempo? Ou os técnicos estavam errados?

Pesam ainda contra o programa de distribuição de material genético centralizado, o aspecto econômico, gerando um alto custo no transporte do material genético, acrescido das perdas causadas pela sua transferência da Biofábrica até as fazendas, algumas delas distantes centenas de quilômetros. No caso do transporte de mudas a situação é ainda mais agravada – no momento não se comporta recuperar através das mudas, pois a resposta é a longo prazo –, pois o ideal é a renovação por garfo para a enxertia, nos cacaueiros existentes, mesmo se levando em conta a baixa densidade das roças da região. O adensamento, sim, que deve ser feito concomitantemente, ou posteriormente, por muda, para posterior enxertia.

Também causa muita estranheza o fato de técnicos experientes – os melhores do mundo em culturas tropicais, a exemplo do cacau – não elaborarem e divulgarem um calendário demonstrando as épocas adequadas para a enxertia. É por demais sabido que nos períodos mais frios as plantas ficam em repouso fisiológico, sem circulação de seiva, ou circulação muito lenta, reduzindo em muito o índice de perda da enxertia. Todo esse processo tem um custo bastante elevado para os agricultores, principalmente se levarmos em conta sua descapitalização.

Nessa história de erros e acertos devemos levar em consideração a posição dos pesquisadores da Ceplac em resistir às constantes pressões feitas para liberar imediatamente os clones, frutos das pesquisas. Não devemos “cortar as cabeças” dos técnicos da Ceplac, que desde 1994 se posicionaram contra a distribuição indiscriminada desse material genético. A estratégia dos técnicos é a liberação gradativa, de acordo com o comportamento no meio ambiente.

Porém, diante da pressão de políticos, autoridades e dos próprios agricultores, desesperados pela ação devastadora da vassoura-de-bruxa nas lavouras, tentaram se “agarrar à primeira tábua da salvação” que lhe aparecesse, os técnicos se sentiram impotentes e iniciaram a distribuição do material genético para a Biofábrica, contrariando os princípios técnicos que indicavam serem os jardins clonais a forma correta dessa distribuição. Resultado: “Entraram na onda” do Estado e CNPq, desconhecedores da realidade local. Mas ainda há tempo de reverter essa realidade.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 10-07-1999

Só no próximo ano

Walmir Rosário

Com a proximidade das eleições, todo o Brasil parou para assistir a disputa entre os candidatos à Presidência da República. Por conta disso, nossos parlamentares também não trabalham em plenário ou nos bastidores dos ministérios, pois se encontram atarefadíssimos em busca de votos e dinheiro para incrementar a campanha.

Enquanto isso, os mortais cidadãos – do Oiapoque ao Chuí – ficam ao sabor da própria sorte. Caso um desses desvalidos precise de um serviço oferecido pelos governos, especialmente o federal – mais longe do contribuinte – encontra o cofre trancado, apesar da necessidade da prestação do serviço. O mesmo tratamento não vale para os banqueiros, empresários da aviação e outros tantos privilegiados.

Os agricultores, pelo tratamento que recebem do Governo Federal, estão incluídos na classe dos desvalidos, e os altos escalões em Brasília não abrem mão de cortar rubricas do Orçamento. Mesmo que isso importe em significantes prejuízos para o país. Decisão tomada, promessa cumprida. E que exploda o Brasil.

Aqui, bem pertinho de nós, na Ceplac, responsável pela pesquisa, assistência técnica e ensino técnico agropecuário nas regiões cacaueiras do Brasil, estamos presenciando as ações desse (des)governo. Há muito os técnicos não podem exercer o seu mister por absoluta falta de recursos. Não há dinheiro para abastecer os carros, pagar a energia elétrica, telefone e outras despesas normais de custeio.

Não é apenas uma nova ordem para desmantelar a Ceplac, pois sua prima-rica, a Embrapa, também está padecendo do mesmo mal: o descaso dos nossos governantes. Mas, o que nos interessa mesmo é como o cacauicultor vai poder continuar a renovar suas roças sem ter por perto quem lhes dê orientação técnica, quem conduza essa grande programa instituído pelo próprio Governo Federal.

É a própria sobrevivência da Ceplac, como instituição eficiente, que está em jogo, e o cacauicultor terá, pela primeira vez, de assumir a condução do seu próprio destino. Ao contrário de antes, quando delegada à Ceplac o que fazer da sua propriedade, hoje é ele quem deverá decidir sobre o futuro e a viabilidade do seu próprio negócio.

É chegada a hora do agricultor, além de planejar seu próprio negócio, influenciar nas decisões políticas que o cercam. Parece inverossímil, mas o produtor de cacau ainda não possui o prestígio e força política para carrear os recursos necessários ao fomento de sua atividade. E olhe que se trata da liberação de apenas R$ 127 milhões para a recuperação da lavoura de cacau da Bahia.

Se um recurso de pequena monta como esse se torna inacessível aos cacauicultores, não há de se pensar em promessas maiores, a exemplo dos R$ 489 milhões para o custeio da safra. Ainda mais se levarmos em conta que estamos em fim de governo, quando está em baixa manter a hierarquia administrativa. Será melhor para o cacauicultor – como todo o cidadão – pensar no futuro, no próximo ano, quando poderá, de forma organizada, cobrar dos nossos governantes essa dívida histórica para com a cacauicultura.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 14-09-2002

 

Democratizar a informação já

Walmir Rosário

As cobranças feitas pela sociedade ainda não foram devidamente assimiladas pela Ceplac, no sentido de que ela possa se tornar um órgão transparente, demonstrando aos seus clientes qual o verdadeiro estágio do programa de pesquisa da vassoura-de-bruxa. Até agora nenhum mortal comum conseguiu abrir a famosa “caixa preta” da Ceplac, em que pese os veementes apelos que vêm sendo feitos há muitos anos.

É inadmissível – nos dias de hoje – que certos setores da administração pública ainda adotem certo tipo de comportamento, no qual a comunicação é feita em apenas uma via, mesmo que o investimento utilizado pela instituição seja feito com o dinheiro do contribuinte. A cobrança que temos feito à Ceplac – de certa forma sistemática – não se trata de perseguição, como pensam alguns, e sim de estabelecer um diálogo com os produtores rurais.

Enquanto uma parte da sociedade ainda se comporta como há anos, conforme o estabelecido no regime ditatorial, outra parte, consciente e livre de amarras, deseja saber detalhes sobre a parte técnica do programa de combate à vassoura-de-bruxa. E para isso, costumeiramente, o fazem através do Agora Rural , veículo de comunicação que vem se firmando como um porta-voz da cadeia produtiva rural.

Não se trata de nenhum demérito para uma instituição ser inquirida por setores da sociedade, ao contrário, pode ser entendida até como uma demonstração de interesse pelo trabalho que realiza. É uma rotina nas universidades e demais órgãos de pesquisa – e todos do corpo técnico da Ceplac sabem –, a “cobrança” iniciar-se ainda âmbito interno, através da “prestação de contas” da produção do pesquisador, solicitada pelos dirigentes.

Essa produção não se resume apenas à pesquisa em si, mas compreende todas as fases do conhecimento, como a publicação de artigos científicos em jornais e revistas especializadas, boletins técnicos, livros editados, entre outros. Em que pese a edição de publicações técnicas na Ceplac, a produção chega a ser incipiente, sobretudo se levarmos em conta a quantidade de pesquisadores que fazem parte do quadro do órgão, grande parte deles com pós-graduação em nível de especialização, mestrado, doutorado e PhD.

Outra deficiência da pesquisa da Ceplac é a falta de entrosamento entre pesquisadores e extensionistas, reduzindo, portanto, o número de informações sobre o andamento do programa de substituição dos cacaueiros decadentes por plantas tolerantes à vassoura-de-bruxa e de alta produtividade. Grande parte da recuperação da lavoura está sendo feita com recursos próprios e material genético de boa qualidade, prospectado nas próprias roças e distribuídas através do intercâmbio entre produtores.

Esse material genético, entretanto, é desconhecido oficialmente da pesquisa, que poderia alargar sua base genética através da validação, que poderia ser feita apoiando-se nos dados de extensionistas e produtores mais organizados. Outra proposta é identificar, nessas plantas utilizadas pelos cacauicultores, genes que indiquem novas fontes de resistência à vassoura e de comprovada produtividade, utilizando-se recursos da engenharia genética. É hora de aproveitarmos todo o potencial do laboratório de biotecnologia e o conhecimento dos seus técnicos.

Em qualquer país do mundo, a exemplo da Malásia, os institutos de pesquisa e fomento agrícola não permitem que qualquer tipo de plantio, por menor que seja, possa ser formado com menos de 20 plantas de características diferentes. Aqui, onde possuímos o maior centro de pesquisas de cacau do mundo, nos contentamos substituir 300 mil hectares com pouco mais de cindo clones, número insignificativo de variedades para o porte do programa.

A Ceplac prestaria uma contribuição significativa à economia cacaueira se imprimisse mais celeridade nas seleções locais, bem como ajudar de forma mais objetiva na identificação e seleção do material genético existente nas fazendas, e que estão sendo aproveitadas com sucesso por alguns cacauicultores. Nesse caso, seria feita uma seleção mais criteriosa, pois esse material genético já está adaptado às nossas condições, convivendo em harmonia o nosso meio ambiente.

Nesse particular, nossos cacauicultores estão esbanjando sabedoria ao dar preferência ao material genético local, implantando essas variedades nas áreas comerciais, por se tratar de plantas de características conhecidas. Isso não quer dizer que desprezem os clones liberados pela Ceplac, pelo contrário, eles – os clones – foram introduzidos em seus jardins clonais, onde são observadas suas características e comportamento ambiental.

Temos consciência da responsabilidade da Ceplac na liberação de cada clone, principalmente os trazidos de outros locais. Entretanto, não custa lembrar que o programa de identificação de material genético resistente e de alta produtividade, em nível de fazendas, teve início em 1991, e intensificado a partir de 93, através dos investimentos feitos pelo Fundecau. Durante esse tempo, mais de 1.500 plantas foram selecionadas, sendo que cerca de 150 delas foram consideradas de boa qualidade.

Hoje, pelo menos cerca de 40 plantas já são sobejamente conhecidas de técnicos e produtores, cujos estudos estão guardados a “sete chaves” nos computadores do Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec). É preciso, o quanto antes, abrir a “caixa preta” e demonstrar à sociedade o que está sendo feito e como deverá ser feito. A Nação Grapiúna, unida pela cultura do cacau, não suporta mais viver de especulação. Então, que se apresentem os dados com toda a transparência recomendada, e coloquem já esses materiais diretamente nos jardins clonais dos produtores.

Sabemos que a Ceplac detém conhecimento científico e materiais genéticos, mas faltam as informações suficientes para que a lavoura de cacau possa ser transformada. Toda mudança é difícil, traumática, e a Ceplac bem sabe disso. É necessário todo um processo educativo voltado para despertar o interesse  nos atores envolvidos – produtores e trabalhadores rurais –, através de um acompanhamento sistematizado dos imóveis rurais participantes na clonagem.

Nisso a Ceplac tem know-how suficiente, adquirido nas históricas campanhas de utilização de adubos, inseticidas, fungicidas e outros insumos modernos. Nesse processo também entra o aspecto comportamental – com ênfase para a administração rural –, no qual o proprietário deixa de ser m simples dono de roça de cacau, realizando visitas mensais para fazer o pagamento, para se tornar um agricultor. Se isso acontecer, a lavoura estará salva.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 29-05-1999

O prazo é pequeno

Walmir Rosário

Com o anúncio da liberação do crédito para o Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira feito pelo presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, dia 21 passado, em Ilhéus, os cacauicultores esperam que não se trate de mais uma promessa.

Os recursos colocados à disposição do Programa, num passado recente, desafiou políticos de reconhecida capacidade e liderança nacional, não atendendo à sua finalidade e perdendo-se nos meandros da burocracia bancária. Segundo as autoridades, agora é diferente, pois a liberação está condicionada ao fornecimento de material genético tolerante à vassoura-de-bruxa e de alta produtividade.

Esperamos que não haja contratempos. A Ceplac pesquisou e, através da Biofábrica, está colocando à disposição dos cacauicultores os tão esperados clones. Entretanto, não podemos perder o prazo da liberação dos recursos em tempo hábil para a realização das práticas recomendadas pelos técnicos da Ceplac, do contrário, estamos apenas endividando ainda mais a combalida economia cacaueira.

A liberação dos recursos é de suma importância para o combate à vassoura-de-bruxa, porém o programa de crédito elaborado por tecnocratas de Brasília não atenta para a realidade da produção, em que pese o esforço empreendido pelos políticos baianos e técnicos da Ceplac e da Secretaria da Agricultura do Estado da Bahia, a exemplo dos prazos para o pagamento dos contratos.

É necessário mais tempo para que o cacauicultor possa colher esses frutos e honrar sua dívida, o que não acontece com menos de cinco anos. Também os juros precisam ser revistos, sob pena de inviabilizar a economia de toda uma região. Afinal, existe uma norma corrente no meio financeiro e que são ditas pelos próprios tecnocratas do BNDES: “Não se coloca dinheiro bom numa atividade ruim”. Essa máxima vale também para o financiamento da cacauicultura.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 30-08-1998

A agricultura como exemplo

Walmir Rosário

Com a descoberta do ataque da vassoura-de-bruxa nos cacauais do Sul da Bahia – antes tido como inacessíveis à essa terrível doença – a mentalidade do povo grapiúna vem se conscientizando para a necessidade de evolução da agricultura regional. Não estamos aqui faltando da evolução tecnológica realizada pelos técnicos da Ceplac, da Uesc e outras instituições que tanto contribuíram na descoberta do tratamento da doença, no combate às pragas em novas, tolerantes e produtivas espécies de cacaueiros ou de outras atividades agropecuárias.

Estamos abordando uma questão mais ampla, a mudança do comportamento regional, acreditando na cacauicultura como seu principal ramo de atividade, sem, no entanto, depender essencialmente dos resultados desta cultura, tão subordinada a vários fatores. Como exemplo dessa dependência estão as adversidades climáticas, aos baixos preços conseguidos no mercado internacional, dos níveis de infestação da vassoura-de-bruxa, dos índices de endividamento do produtor e até mesmo da vontade dos industriais em importar cacau africano de qualidade duvidosa.

Hoje, passados 10 anos de convivência com a vassoura-de-bruxa, as transformações sociais podem ser vistas a olhos nus. Claro que estamos longe de viver numa “Califórnia ao Sul do Equador”, onde sobram empregos e riquezas, mas sim onde há confiança no futuro. Que região seria capaz de atravessar por duas crises conjuntas – a da cacauicultura e a nacional – vencendo a luta contra a vassoura-de-bruxa, transformando a pecuária – de leite e corte – e a criação de equinos, todas atividades que utilizam recursos tecnológicos de última geração, sem falarmos nas atividades industrial e turística, que crescem substancialmente.

Além da atração de divisas para a capitalização da economia regional, existe também um chamamento para transformar a Região Cacaueira da Bahia num centro de geração de inteligência. Exemplos cristalinos dessas mudanças estão acontecendo na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), com a criação de cursos voltados para a agropecuária, a exemplo de Agronomia e Medicina Veterinária; nas Emarc’s, que ministram cursos de nível técnico para atividades agropecuária e agroindustrial.

Essas iniciativas consolidam as atividades do agrobussiness pela exploração vertical dos imóveis rurais através de gestão empresarial, com o objetivo de produzir mais, com qualidade e baixo custo, elevando o nível de competitividade requerido por um mercado cada vez mais globalizado. Daqui pra frente, o importante não é só produzir muito, e sim produzir dentro de padrões adequados e compatíveis como o tipo de atividade. Para tornar isso possível, o produtor rural deve sair do isolamento e ir em busca de novos conhecimentos e parcerias junto às associações, cooperativas e fornecedores. Do contrário estará fadado a mudar de ramo.

Mais uma vez a Região Cacaueira da Bahia dá uma prova inequívoca de confiança no futuro, principalmente na atividade agrícola, haja vista o conjunto de parceiros que o Jornal Agora buscou para concretizar o primeiro suplemento rural – o Agora Rural – porta-voz do segmento socioeconômico agrícola, o mais importante no contexto regional.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 26-07-1988

Mudança de perfil

Walmir Rosário

Serenada a tempestade com a liberação de centenas de contratos de financiamento para a lavoura cacaueira, chegou a hora de corrigir os rumos do programa. Afinal, até as autoridades reconhecem que somente cerca de 30% dos cacauicultores terão acesso ao crédito do Programa de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia, o que, convenhamos, é uma quantidade inexpressiva tendo em vista o largo alcance econômico e social previsto.

Na primeira reunião do Grupo de Supervisão do Programa, realizada nos meados de abril, aqui na sede da Ceplac, a preocupação era a de liberar o crédito com mais pressa possível, para que sejam conseguidos resultados positivos. Aqui, o Grupo visitou as instalações da Ceplac, o biolaboratório de produção do fungo antagônico, a biofábrica e uma fazenda de cacau que executa o programa. Ainda é muito pouco para se avaliar.

Temos convicção que o assessor especial do Ministério da Fazenda, Gerardo Fontelles, tem consciência que os obstáculos ainda não foram superados e que não navegamos em céu de brigadeiro. Afinal, quem melhor do que o próprio Gerardo Fontelles para conhecer os estragos provocados pela vassoura-de-bruxa em nossa região? A nossa sugestão é que, na próxima reunião do Grupo de Supervisão, sejam visitadas as mesmas fazendas anteriormente mostradas ao dr. Fonteles, para que ele ficasse ciente dos prejuízos provocados pela vassoura.

Como um homem sensível, um técnico capaz de propor soluções para os problemas, por certo ele concordará em rever essas fazendas. Nesta mesma viagem nossos representantes também poderão mostrar o que está acontecendo com as áreas tradicionais de cacau, as primeiras plantadas e nos solos mais férteis. Aqueles que por não atender exigências do programa, como possuir 500 cacaueiros por hectare, ficam fora do programa, aumentando a fonte de pressão do fungo da vassoura.

Nesta mesma visita, nossas autoridades financeiras do BNDES, Tesouro Nacional, Ministério da Agricultura, Fazenda e outros tantos órgãos, tomarão conhecimento que, caso persistam determinados entraves, nossas terras mais férteis serão todas plantadas com cofe conillon, nem que para isso seja necessário derrubar a Mata Atlântica. Quando isso acontecer, perderemos nosso abençoado bioma, meio ambiente que nos protege e os poucos mananciais de água que nos restam.

Nada contra temos em relação às roças de café, cultura que garante um lucro bem amior do que o cacau. Mas não podemos ser coniventes com a situação de serenidade que querem nos mostrar. Não podemos desconhecer verdadeiros oásis no meio do deserto causado pela vassoura-de-bruxa, pelo contrário, nossa intenção é que cada vez mais os cacauicultores excluídos possam fazer parte dessa elite que pode frequentar a carteira agrícola do Banco do Brasil.

Queremos fazer valer o direito de todos serem protegidos  pelo nosso meio ambiente. Queremos que todos possam ter acesso aos clones tolerantes e mais produtivos. Queremos que todos sema tratados como cidadãos de primeira classe. O que, convenhamos, não é exigir muito.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Agora Rural em 01-05-1999

E Geraldo derrotou o PT…

Walmir Rosário

A arrogância e prepotência própria dos coronéis da política interiorana do início do século passado incrustaram em Geraldo Simões após sua permanência no poder. Não sei bem como qual nome científico mais adequado para isso, mas posso assegurar que tal prática é maléfica ao comportamento e a perfil dos políticos, e pior ainda para o povo, para a Nação.

Determinados membros do Partido dos Trabalhadores, cuja proposta inicial era a implantação da ética e moralidade na política brasileira, se desviaram de seus propósitos, abandonaram os dogmas contidos nos seus estatutos, copiaram, de forma desavergonhada, nas práticas que abominavam. Passaram de guardiões da moralidade a praticantes das mesmas mazelas por eles denunciadas, só que feitas com mais intensidade.

Na economia, essa voracidade famélica poderia ser explicada através do princípio da demanda reprimida, transpostas para o campo da ética por Geraldo Simões durante a sua primeira administração da Prefeitura de Itabuna. Os “meninos” que promoviam badernas para reclamar, apedrejando ônibus, entupindo fechaduras com cola araldite e massa plástica, se mudaram para os palacetes do Góes Calmon. Em volta das piscinas e whisky on the rocks as análises passaram a ser vistas por outro prisma, naturalmente de forma conservadora, mas confortável, e à bordo de carros luxuosos, os New Civic de hoje.

Aconselhados pela classe conservadora e pelos efeitos etílicos do mais puro malte das montanhas escocesas – com o reforço de uma legítima vodca russa –, a “república sindicalista” foi revestida de luxo e riqueza, rasgando os escritos de Karl Marx e condenando a mais valia ao fogo do inferno. Nada como os encantos da burguesia, principalmente quando se chega à condição de new rich.

Aos poucos, os companheiros das greves da Ceplac foram sendo defenestrados, talvez por não saberem como se comportar nas mansões e os operários de campo, auxiliares de serviços gerais, dentre outros piqueteiros foram substituídos pelo todo-poderoso Geraldo Simões pela fina flor da cacauicultura. Pela mão providencial de Martinelli, foi introduzido aos salões da nobreza, deixando de fora a plebe ignara.

Do alto da montanha, não dava mais para mirar, como antigamente, os velhos companheiros, estes perifericamente afastados. Os tempos são outros. Ao invés da força bruta dos piquetes, Geraldo Simões, o então prefeito, passou a se utilizar das artimanhas do poder dominante. Aos poucos, os Giltons, Veridianos, foram sendo substituídos pelos espertos doutores, ávidos para continuar encastelados no poder.

Mesmo conhecendo a derrota nas urnas, Geraldo foi incapaz de fazer uma reflexão para saber onde errou, fazer um mea culpa, reunir antigos colaborados, refazer seu exército. Mas não, preferiu os novos amigos, estes com mais experiência de vida e palavra fácil, capazes de massagear o ego do chefe com elogios fáceis e tapinhas nas costas. Não há quem resista!

E mais cabeças foram sendo cortadas. O “colégio de cardeais” petista passou a ostentar nomes conhecidos da velha oligarquia antes conhecida e combatida, e assumiram cargos importantes. Rei morto, rei posto, e Nelson Simões, Eliezar Correia, Everaldo Anunciação, Josias Gomes, tiveram seus nomes lançados no rol dos degredados. Sem qualquer explicação, deixaram de ser considerados da turma de “minha pedinha”.

Generais de outros exércitos tiveram de despir os velhos pijamas listrados para integrar o staff geraldiano. A cada reforço recrutado em Salvador e Brasília, mais uma cabeça interiorana rolava. E os reflexos foram sendo sentidos nas bases, notadamente entre os ceplaqueanos, responsáveis pela rápida ascensão do técnico agrícola em político influente e consequentemente uma das mais promissoras fortunas da Bahia.

Relegados ao degredo pelo Politiburo de Geraldo Simões, aos poucos seus desafetos foram sendo reabilitados. Ao assumir a Presidência do PT em Ilhéus, Eliezer Correia foi responsável pelo crescimento do partido. Everaldo Anunciação é hoje um dos homens fortes da candidatura de Walter Pinheiro em Salvador. Nelson Simões braço-direito do governador Jaques Wagner, e por aí afora…

O desafeto maior de Geraldo, Josias Gomes, foi, sem dúvida, o deputado federal mais atuante do Sul da Bahia, somente podendo ser comparado com o médico ilheense Jorge Viana. A disposição de trabalho de Josias no projeto de implantação do PT na Bahia despertou um sentimento de inveja e ciúmes ao vislumbrar uma ameaça ao seu projeto político individualista. Mesmo fora da Presidência estadual do PT, Josias continua sendo o homem de mais prestígio entre lideranças e militância no estado.

Ao desprezar todos os militantes petistas da Bahia, lançou seu último empreendimento da política coronelista, ao impor sua mulher como candidata a prefeita de Itabuna. Pela primeira vez os petistas se rebelaram e não seguiram a orientação partidária e o PT votou contra o PT, apesar da questão fechada.

Por último, Geraldo pensou que desafiaria a maioria do povo, inclusive o governador do Estado, que se posicionou contra a candidatura de Juçara Feitosa, pensando que voltaria a ganhar a eleição. Errou por prepotência, prejudicou o PT por arrogância. Manda a lei natural que cada um pague por seus pecados, como diz o ditado… “a justiça tarda mais não falha”.

E assim, assistindo a reabilitação e o crescimento dos desafetos, Geraldo Simões ainda vai ter que devolver “sua Secretaria da Agricultura” para o governador e ainda aturar seu ex-assessor parlamentar na Assembléia Legislativa, José Sérgio Gabrielli, hoje presidente da Petrobrás, ser lançado candidato ao Senado na vaga pretendida por “minha Pedinha”. Será o tiro de misericórdia. Ao derrotar o PT, Geraldo também será atingido.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 11-10-2008

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