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José Adervan – foi o homem fica sua história

Walmir Rosário*

Em 3 de março próximo José Adervan de Oliveira completaria 75 anos de existência, 66 deles vividos em Itabuna – sem levar em conta o período que passou em Salvador e Alagoinhas. A intenção dos amigos e família era elaborar uma edição especial do Jornal Agora para homenageá-lo, mas como ainda não conseguiram tornar a vida perene, nos deixou antes disso.

Lutou contra a enfermidade até não poder mais. E não poderia ser diferente para quem passou toda a vida superando obstáculos, sempre com a naturalidade que lhe era peculiar. Se as coisas estavam difíceis, aí era que ele apostava num salto mais alto. Contava que aprendeu isso com sua mãe, obstinada, como toda sergipana, em tornar vencer as dificuldades.

E Adervan, o mais baiano – grapiúna – dos sergipanos, costumava lembrar do dia em que chegou a Itabuna, numa data qualquer de 1951, em cima de um “pau-de-arara”, fugindo da terrível seca. Aos nove anos, o menino se deslumbrou quando o caminhão parou no terreno baldio onde hoje é o Fórum Ruy Barbosa, e resolveu fazer um reconhecimento daquela que seria a cidade do seu coração.

Mais do que sergipano de Boquim, passou a ser itabunense e cidadão da região cacaueira, título dado e passado pela população do Sul da Bahia, como reconhecimento dos seus feitos. Era um obstinado pelo desenvolvimento regional e travou uma luta constante na defesa da nossa economia, pelo cumprimento das promessas dos políticos, e pela garantia básica de direitos assegurados em nossa Constituição, como educação, saúde e cidadania.

É bom que se diga que esse estofo não nasceu do Jornal Agora, bastião da defesa regional, criado por Adervan e Ramiro Aquino, uma instituição que teima em desafiar a história, sobrevivendo por longos 35 anos. Não pensem que foi o Jornal Agora quem fez Adervan. Foi exatamente o contrário e desde os tempos de Alagoinhas que ele já se dedicava à imprensa, editando uma revista.

Dos tempos menino, quando começou a respirar o cheiro das tintas nas gráficas, ainda com tipos frios, passou pelo chumbo quente dos linotipos até as impressoras planas e a composição digital. Durante esse período, dividiu seu tempo com a política, a começar pela estudantil, elegendo-se presidente da então toda poderosa União dos Estudantes Secundaristas de Itabuna (Uesi).

Por ocasião da eleição para o Governo do Estado da Bahia, encampou a luta em defesa da construção do novo Colégio Estadual de Itabuna exigindo o compromisso dos dois candidatos – Waldir Pires e Lomanto Júnior. Eleito, Lomanto manteve o compromisso e construiu um novo prédio no bairro São Caetano.

Defensor intransigente da educação como indispensável para a formação do homem, Adervan, já economista diplomado pela Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna (Fespi), prestou sua colaboração à educação superior, como professor da instituição. Mais acreditava que poderia contribuir ainda mais e se tornou um baluarte pela sua estadualização.

Assim como lutou pela transformação da Fespi em Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) se empenhou na criação da Universidade Federal do Sul da Bahia (USSB). Mas nada disso se compara como o carinho com que recebia jovens estudantes que frequentemente visitava o Agora. Sua paixão era tanta que ao criar o suplemento Agora Teen, elaborado com a paricipação dos alunos das escolas, acreditava que fosse um veículo especial para a formação de novos leitores.

Uma das suas criações e que se transformou em seu “xodó”, o Agora, mais do que um jornal se transformou numa escola. Pela redação que tive o prazer de participar algumas vezes, convivíamos com o que tinha de melhor no jornalismo. Numa só redação, nomes como Antônio Lopes, Joel Filho, Kleber Torres Vera Rabelo, Ricardo Ribeiro, Jorge Araújo, Ricardino Batista, Juarez Vicente, Gonzalez Pereira, Eduardo Lawinsky, Kaline Ribeiro, Paulo Fumaça, Walter Júnior, Arnold Coelho, Waldyr Gomes, dentre muitos outros, circulavam com desenvoltura.

Junto com Ramiro Aquino já inovava ao criar a Plopan, que revolucionou o setor de eventos e grandes promoções no Sul da Bahia, atuando nas áreas de entretenimento, com grandes atrações. No esporte brilhou ainda mais, ao lançar os títulos patrimoniais do Itabuna Esporte Clube (Meu time de fé), promovendo grandes jogos com as grande equipes do Brasil.

Bom garfo e bom copo, dispensava um convite de que festividade fosse, ou abandonava-a, quando chegava a hora de assistir pela TV aos jogos do seu time querido: o Flamengo. Apesar do DNA festeiro, duas festas lhe eram sagradas: o Natal, em que fazia questão da família e amigos juntos em casa, e o Carnaval, que desfilava ao modo antigo com sua cartola.

Citar as qualidades de Adervan é chover no molhado. Afinal, o homem é medido pelos seus feitos e necessário seria um extenso e enfadonho relatório nominando sua participação. A sua participação na sociedade está escrita nas entidades em que serviu, como a Maçonaria, AABB, CDL, Associação Comercial, e as que participava com apoio e entusiasmo.

No Sul da Bahia, em qualquer das cidades, sempre haverá alguém com uma história de Adervan na ponta da língua para contar. Assim como lutou pelas causas da sociedade, lutou bravamente contra uma enfermidade, se recusando a abandonar sua trincheira. Como bom anfitrião, recebia os amigos e gostava-os de vê-los à sua volta até o último instante.

E assim se despediu: no dia de jogo do Flamengo contra o Botafogo (perdôo-o pela vitória) e de Carnaval. Com as bençãos de Deus!

* Um grande amigo.

Ceplac e a síndrome da Gabriela

Editorial do Jornal Agora, publicado sexta-feira (24-02-17)

Se nada tivesse dito além de admoestar os dirigentes da Ceplac na Bahia quanto à síndrome da Gabriela que acomete aquele órgão federal, o secretário estadual da Ciência, Tecnologia e Inovação, José Vivaldo Mendonça, já teria cumprido um bom papel durante a solenidade de comemoração dos 60 anos do departamento que cuida do cacau no Brasil, registrados na segunda-feira (20).

Disse Vivaldo (não literalmente): “A Ceplac precisa deixar a síndrome da Gabriela – ‘eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim’”. A citação à icônica personagem de Jorge Amado é uma referência à “Modinha para Gabriela” (1975), composição de outro gênio baiano, Dorival Caymmi, imortalizada na voz da diva Gal Costa.

Pois bem. Nunca antes na história da Ceplac houve uma reação tão forte contra um diretor, como o ataque que se verifica contra Juvenal Maynart nas últimas semanas. Em apenas uma ação, pelo menos três interesses estão em jogo: o do presidente do PMDB, Pedro Arnaldo, por motivos pessoais – segundo o próprio confidencia a interlocutores. O de um grupo de ceplaqueanos, notadamente de alguns auditores fiscais federais – os que antes eram identificados apenas como “os agrônomos” e eram os “donos” do órgão. E, por último, aquela conhecida reserva de mercado do corpo diretivo da Ceplac, que, ao contrário do servidor comum, rejeita tudo o que não é ele mesmo. Nesse caso, a síndrome é outra, de Narciso.

O pano de fundo é a manutenção de um espaço físico, o prédio do Centro de Extensão (Cenex), que os auditores fiscais federais estimulam servidores e dirigentes sindicais e representantes de entidades de funcionários, a “defenderem” contra a “sanha” de Juvenal. Afirmam que o diretor é insensível ao sentimento de pertencimento que eles têm ao prédio, a casa a partir de onde a Ceplac expandiu suas fronteiras, nos idos dos anos 1960, levando a tecnologia produzida pelo Centro de Pesquisas do Cacau (Cepec).

O prédio em questão tem quatro mil metros quadrados – usando a “medida-padrão” da Rede Globo, seria equivalente a quatro campos de futebol – e ali já trabalharam 200 servidores, nos tempos áureos. Hoje são 71. Desses, porém, apenas 32 são ligados à atividade-fim. Os demais são do setor burocrático, agentes de portaria, de transportes etc., e serão todos remanejados para outros postos, a partir da centralização administrativa promovida pelo Ministério da Agricultura – lembremos que a Ceplac foi transformada em um departamento, na gestão do último diretor, Sérgio Murilo, por sinal um grande opositor de Maynart nesse processo.

Calma que ainda reduz mais: dessas 32 almas, duas estão de saída. Uma será cedida à Justiça Eleitoral e outra está assumindo um cargo no governo estadual. Ficaria, portanto, o prédio do Cenex, habitado por apenas 30 bravos extensionistas – auditores fiscais federais e agentes de atividades agropecuárias, os antigos técnicos agrícolas.

Ora, num momento em que o país clama por boas práticas e que sejam observados ao máximo os princípios da economicidade, da eficiência e da razoabilidade na administração pública, é no mínimo uma demonstração de bom-senso apoiar a transferência desses guerreiros de outrora a um novo espaço, menos dispendioso para os bolsos do cidadão-contribuinte. Deem-se-lhes as medalhas e comendas merecidas. Mas, não estimulem essa grave síndrome que acomete a nossa velha senhora da cacauicultura.

Também publicado por: http://www.otrombone.com.br

Cinco chances de ganhar no comércio de Itabuna

O publicitário Rui Carvalho apresenta a campanha

O publicitário Rui Carvalho apresenta a campanha

A CDL de Itabuna vai realizar uma campanha promocional sem trazer os tradicionais motivos natalinos em suas peças publicitárias. Todas elas são voltadas para falar da premiação, que orientou inclusive o tema do evento: “Cinco chances de ganhar no comércio de Itabuna”.

Ao apresentar o trabalho da agência RCM, há 21 anos cuidando das campanhas da CDL, o publicitário Rui Carvalho frisou que deu tratamento especial ao mote do evento, com a premiação de três carros e duas motos e quebrando um paradigma que já durava meio século, onde a figura do Papai Noel centralizava toda a campanha. “Não perdemos a motivação do Natal, que é a data promocional mais importante do calendário lojista, pois a lembrança está na cores das peças, mas como a promoção vai durar noventa dias, indo até o dia 31 de janeiro de 2015, focamos todo o trabalho em torno da premiação”, disse.

Além da Prefeitura, correalizadora do evento, 14 patrocinadores master dão suporte à campanha, como a Rubi Renault, Jupará Motos, Viação Rio Cachoeira e Viação São Miguel, Drogarias Letícia, Supermercado Meira, Shopping Jequitibá, Postos Universal, Conlar, Emasa, Sebrae, Marmoraria Margran, Caixa e Jornal Agora, que disponibilizará 6 milhões de cupons, cada um deles trocado quando as compras atingirem a cota de R$30,00.

Novidades

Além do presidente Jorge Braga, do diretor-promocional Carlos Leahy e do publicitário Rui Carvalho, falaram ainda o superintendente da Caixa, Marcus Vinicius e o gerente da agência Itabuna, Haroldo Motta, que anunciaram um convênio da instituição com a CDL, abrindo uma linha de crédito de R$50 milhões para o comércio. O secretário municipal José Humberto Martins, representou o prefeito Claudevane Leite, e o consultor nacional do Sebrae, Carlos Eduardo Costa, fez uma palestra motivacional sobre o tema “Atitude para uma gestão vitoriosa”.

Foi ainda apresentada uma campanha paralela da TV Santa Cruz “Itabuna Tem”, que incentiva os telespectadores a comprarem no comércio de Itabuna e o diretor Carlos Leahy anunciou parceria com o Sindicato dos Taxistas e a empresa Chame-Táxi para os taxistas se engajarem na promoção também distribuindo cupons a seus clientes e expondo em todo o vidro traseiro do carro um adesivo da campanha.

Itabunense é destaque na preparação física de atletas

João José Rosário utiliza ferramentas não convencionais nos treinos de fitness e performance atlética 

João José alça novos voos

João José alça novos voos

Do trabalho como designer no jornal Agora a preparador físico de atletas de alto rendimento no Sul do Brasil. Definitivamente trabalhar entre quatro paredes não era a vocação de João José Rosário. O interesse pela prática de esportes como natação e capoeira despertou a vontade deste itabunense em cursar a faculdade de Educação Física.

Atualmente João José Rosário é preparador físico da premiada equipe Júnior Aguiar de Muay Thai e Mixed Martial Arts (MMA) de Joinville, Santa Catarina, que lidera o ranking brasileiro de Kickboxing, com três atletas selecionadas para o mundial deste ano. Dentre elas, Juliana Aguiar, Hexacampeã brasileira e vice-campeã mundial de Muay Thay, e Kinberly Novaes, tricampeã brasileira e vice-campeã mundial de Muay Thay, ambas atletas profissionais de MMA.

A carreira profissional deste itabunense começou a mudar quando há cinco anos fixou residência em Joinville, Santa Catarina, para se especializar em Fisiologia do Exercício, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná, e não parou mais de buscar novidades nesta área. João Rosário possui certificação internacional em Kettlebell Fitness pela empresa americana Dragon Door, curso de Levantamento de Peso Olímpico, com Edmilson Dantas, cinco vezes campeão Pan-Americano na modalidade, e já está de malas prontas para Buenos Aires, para obter a certificação em Kettlebell Esportivo, que será ministrado pelo presidente da Confederação Internacional de Kettlebell & Fitness, Steve Cotter.

Treinamento diferenciado

João Rosário é um entusiasta do treino com kettlebell — uma bola de ferro com alça utilizada há séculos pelos russos para demonstrar força —, que tem revolucionado os treinamentos físicos, promovendo queima rápida de gordura e melhora do condicionamento físico geral. Para ele, este é um dos mais efetivos instrumentos para um corpo forte e saudável.

— Os kettlebells são eficientes porque ativam vários grupos musculares numa série de exercícios que movimentam o corpo inteiro, trazendo resultados mais rápidos — afirma.

João José Rosário (1)Em 2009, João Rosário fundou a empresa Brutal Strength and Conditioning, que é umas das primeiras do segmento, no Sul do Brasil, a trabalhar com ferramentas não convencionais para fitness e performance atlética, como cordas, argolas, marretas e  kettlebells. A Brutal treina atletas e também pessoas que buscam diminuição do percentual de gordura, aumento da massa muscular e restabelecimento da mobilidade e bem estar. A empresa também proporciona atualização e formação profissional com a realização de workshops para professores de Educação Física.

A Brutal tem franquias em Curitiba, gerenciada pelo professor de Educação Física, Vitor Bertoli Nascimento, membro da Sociedade de Brasileira de Hipertensão; e em Itabuna, coordenada por Tiago Carvalho, formado em Educação Física na Uesc e certificado no treinamento em kettebell.

Em 2011, a convite do professor Alberto Kruschewsky, do curso de Educação Física da UESC, João Rosário esteve na região proferindo a palestra Kettlebell Hardstyle, para alunos da matéria Atividade Física Não Escolar. À época, Rosário demonstrou interesse em ministrar cursos de formação de instrutores em kettlebell training na região em parceria com o curso de Educação Física da instituição.

João Rosário planeja consolidar sua empresa até 2016 como referência em treino funcional no Brasil e no mercado internacional. Para isso, suas apostas serão a produção científica de artigos e promoção de eventos esportivos. Ele informa que está escrevendo um livro sobre os benefícios do treino com o kettlebell para corredores, em coautoria com o professor Vitor Bertoli, e a intenção é que a obra seja publicada em português, inglês e espanhol.

PUBLICADO NO JORNAL AGORA EM 28-07-2013

Carneiro em homenagem aos turcos nos 103 anos de Itabuna

Carneiro pronto para ser devorado

Carneiro pronto para ser devorado

Queiram ou não os sírios e libaneses, os turcos foram muito importantes para o desenvolvimento do Sul da Bahia, especialmente Itabuna. Até o nosso conterrâneo Jorge Amado – itabunense que os ilheenses teimam em tomar de nós – escreveu sobre a fundação da cidade pelos otomanos. E haja história e estórias para contar…

Pois é, apesar das diferenças entre sírios, libaneses e turcos, uma coisa os une: a comida. Especialmente o carneiro criado nas montanhas desses países e preparados das formas mais diferentes. Melhor dizendo, mudam-se alguns temperos, mas não a essência. E como acompanhamento, nada melhor do que o velho e sagrado pão – sírio, turco, árabe, pouco importa.

Essa confusão é normal, embora não justifique o “rancor” dos sírios e libaneses pelos turcos, pelo simples fato destes não serem árabes. Mesmo assim não dispensavam o passaporte turco para embarcar para o longínquo Brasil. “Brimos” ou não continuarão comendo carneiro e pão per omnia saecula saeculorum.

E para comemorar os 103 anos de Itabuna, o festeiro anfitrião jornalista José Adervan decretou:

– Walmir Rosário, vamos comer aquele carneirinho que o senhor prometeu preparar e que até hoje ainda não provamos. E nada melhor do que um carneiro turco para comemorar os 103 anos de Itabuna. E vamos chamar os convidados para atestar o prato. De Ilhéus, não esqueça Carlos Farias e José Nazal – ordenou.

Diante de tamanha incumbência, a primeira providência por adotada foi solicitar a Paulo Dantas um pernil de carneiro à altura dos convidados e da comemoração. Um cordeiro uruguaio bem alimentado e de carne marmorizada foi o escolhido. Agora era só sair em busca dos temperos, mas nada de diferente, essências e especiarias do nosso dia a dia.

Carneiro na geladeira, temperos à mão, a segunda providência para atender às ordens de Adervan foi pegar o celular e ligar para os convidados. Convite feito e divulgado o prato, o evento “vazou” para as redes sociais, entre eles o facebook. Mas nada se comparava à descortesia de determinados convidados, incrédulos com minhas práticas em artes culinárias.

Alguns mais desinformados nem conhecimento possuíam sobre esse hobby que cultivo. Outros, mais ou menos informados, como Carlos Farias, duvidavam da minha competência em carnes, especialmente carneiro. Sabiam eles, por ouvir dizer, que eu teria sido aluno de um curso de peixes e frutos do mar ministrado por Antônio Olímpio Rhem da Silva, doutor em Direito, política, pescaria e culinária.

Mas duvidavam das carnes. Esperavam pelo veredito de José Nazal, conhecedor e praticante da arte de cozinhar e comer, especialista na culinária árabe, aprendida no cotidiano com os avós. Para a decepção dos comensais, Nazal não compareceu, desculpando-se do dia estafante e de dores de cabeça. Perdeu, mas receberá relatório oral detalhado de Carlos Farias, que lambeu “beiços e dedos”.

Mesa posta, copos cheios e barrigas vazias, era chegada a “hora do vamos ver”. Nisso chega um batalhão de gente capitaneado por Geddel Vieira Lima, Renato Costa e Juvenal Maynart. Comeram de sem descanso e ainda pediram a receita. Sem falar em convidados tantos outros, ávidos por degustar o carneiro e me por à prova.

Aprovado com distinção e louvor pelos convivas, fui promovido a chef de forno e fogão. Nem parece que leem “Os prazeres da Mesa”!

Vamos preparar o carneiro (recheio):

Ingredientes:

3 kg de pernil de cordeiro;

6 cebolas roxas grandes;

12 dentes de alho;

100 g de açúcar mascavo;

3 colheres de sopa de tomate em calda;

260 g de polpa de tomate;

4 colheres de sopa de mostarda;

2 colheres de sopa (bem cheias) de páprica picante;

2 colheres de sopa de cominho em pó;

1/2 xícara de chá de vinagre de vinho tinto;

1/2 xícara de molho inglês;

Azeite para fritar a carne;

Sal (a gosto)

Pimenta-do-reino (a gosto);

1 xícara de água

Pão turco tosco (50 unidades):

Ingredientes:

1 kg de farinha de trigo;

650 ml de água;

20 g de sal.

Modo de preparo do pão:

Coloque a farinha de trigo e o sal numa vasilha e vá misturando, aos poucos, com água morna até formar assim uma massa compacta elástica. Deixe descansar por 15 minutos e depois separe em bolinhas. Em seguida, abra com um rolo para que fique em forma circular e fina. Depois leve em uma frigideira (ou chapa) e asse em fogo médio.

Modo de preparo da carne:

Corte a carne em pedaços médios e reserve. Corte as cebolas em fatias finas e pique os dentes de alho. Misture todos os temperos em uma vasilha: mostrada, vinagre, molho inglês, pimenta e sal, açúcar mascavo, polpa de tomate e tomates em calda.

Em seguida doure a carne em um pouco de azeite bem quente. Retire a carne, e aproveite o azeite que sobrou da fritura da carne na mesma panela, coloque a cebola e o alho para fritar, depois junte a carne por cinco minutos a fogo médio. Tire a panela do fogo e adicione os temperos e a água. Tampe a panela e coloque no forno preaquecido a 180ºC por duas horas.

Quando estiver cozido tire do forno e deixe resfriar. Em seguida, desfie a carne com as mãos ou a ajuda de um garfo e coloque novamente na panela, deixando secar um pouco no fogo e com cuidado para não deixar grudar no fundo da panela.

Agora é a parte melhor: pegue um pão turco e coloque uma porção da carne, enrolando-o e coma à vontade.

Prefeitos querem “sossegar” submundo do transporte

Falta respeito com o usuário, que paga passagem cara para andar pendurado

A primeira providência pensada pelos prefeitos para acalmar os proprietários das empresas de transportes urbanos é “meter a mão” no bolso dos combalidos contribuintes. E pretendem cometer mais esse crime sem a menor cerimônia.

Nenhum desses prefeitos quer “passar um pente fino” nas famosas planilhas apresentadas pelos proprietários de transporte coletivo urbano e metropolitano, sempre apresentada com umas gordurinhas a mais.

Ao invés de buscar gordura para queimar nas planilhas, para nossos prefeitos é bem mais conveniente subsidiar o valor das passagens. E esse dinheiro, naturalmente, saem dos nossos bolsos, rotos e vazios.

De um lado, empresários reclamam do grande índice de gratuidade; do outro, os prefeitos acenam com complementos cuja origem é o erário da viúva. E ainda pedem ao governador para não cobrar o ICMS do óleo diesel.

Essa sanha pelo lucro deixa passar batido a concessão fiscal feita pela presidenta Dilma em relação ao PIS/Cofins, que deixou de ser pago pela empresas de ônibus, e em algumas cidades não pagam o ISS.

São os donos dessas empresas de transporte velhos camaradas do prefeito atual, mesmo que não percam a amizade com os que saíram. Prática de quem se interessa apenas com os negócios.

Contribuem com generosidade para as campanhas eleitorais. Eleições à parte, não dispensam a camaradagem com o poder, sempre que requisitados, comprovando que são amigos dos amigos.

Mesmo quando não são amigos, não desbotam. Atendem aos pedidos, até como uma medida preventiva. Afinal, quem é que não quer que seus negócios prosperem. Com vento de popa é mais fácil.

Lembro-me de um desses donos de empresa de ônibus que dizia abertamente ser obrigado a cumprir semanalmente com uma obrigação fora do contrato, chovesse ou fizesse sol.

E olha que esse empresário era desafeto do prefeito, tanto que se candidatou ao cargo de executivo municipal, substituindo-o na prefeitura. E essa denúncia está numa entrevista concedida no Jornal Agora.

O prefeito não reclamou, ao contrário, se fez de morto, com receio de uma investigação do Ministério Público. Então, se existe essa convivência espúria, é porque traquinagens são feitas a torto e a direito.

E o pior: os ônibus são caminhões encarroçados que não recebem a manutenção devida e nem a quantidade de veículos e em horários suficientes para transportar os passageiros com dignidade.

Bom, mais aí já é pedir muito para um país emergente, ainda classificado como de terceiro mundo. E segue o enterro!

Um ponteiro-direito que jogava por música

Walmir Rosário

Não tem que não tenha conhecido Lane, ponteiro-direito da Associação, Janízaros e Flamengo de Itabuna, nos anos 1950. Ponteiro de muitas firulas, e que gostava de fazer gols, todos comemorados com muito estilo e alegria. Marcar Lane era um suplício para os zagueiros, devido ao seu estilo brincalhão, mas que conduzia a bola com seriedade em direção ao gol.

Se tinham algumas pessoas que não gostavam de Lane eram justamente os zagueiros, o que ele considerava “jogadores de categoria inferior” – isso os dos times adversários, de sua equipe, não –, que só sabiam entrar no atacante para bater, machucar. E isso Lane detestava. Já imaginou receber uma falta e cair no campo molhado, sujar o calção? Nem pensar! Receber uma pancada na perna e baixar o meião…para ele essa era uma atitude inconcebível.

A equipe de Itabuna, com a camisa da Associação, foi campeã do Torneio Caixeral de 1957, vencendo Itapé por 3X2, gols de Juca Alfaiate, (2) e Lane (1). Em pé: (?) Vitor Baú, Sílvio Sepúlveda, Pedro Mangabeira, Lauxinho e Guaraí;agachados: Lane, Pedrinha, Juca Alfaiate, Macaquinho e Dioclécio

A equipe de Itabuna, com a camisa da Associação, foi campeã do Torneio Caixeral de 1957, vencendo Itapé por 3X2, gols de Juca Alfaiate, (2) e Lane (1). Em pé: (?) Vitor Baú, Sílvio Sepúlveda, Pedro Mangabeira, Lauxinho e Guaraí;agachados: Lane, Pedrinha, Juca Alfaiate, Macaquinho e Dioclécio

Os torcedores que tiveram a felicidade de presenciar Lane jogando uma partida são capazes de testemunhar a elegância com que entrava em campo e como saía, isso quando os zagueiros deixavam. Os roupeiros dos times por onde passou é que não gostavam muito das exigências de Lane em só receber o uniforme bem passado e engomado. Dizem, até, que ao ser contratado pelo clube, impunha ser o seu uniforme lavado e passado com todo o esmero por um conhecido profissional da pedra do Rio Cachoeira de nome João Brotinho, com fama aqui e em Itajuípe. Só assim ele entrava em campo.

Arlindo Monteiro Orrico era seu nome de batismo e certidão nascimento lavrada no cartório de Santo Antônio de Jesus, sua terra natal. Casado com dona Maria Isabel, com quem teve 12 filhos, viveu até os 83 anos, sempre esbanjando alegria por onde passava, brincando com os amigos, mesmo quando a situação lhe era adversa.

Chapista (funileiro, que conserta lataria de carros) de profissão, futebolista de primeira e músico da Euterpe Itabunense, a fama de Lane ultrapassava os limites do bairro Conceição, onde residia, e ia além das fronteiras de Itabuna. Um fim de semana sem festa e sem futebol era coisa que ele não admitia e fazia questão de não deixar passar isso em branco.

Os dias de sábado eram reservados para as festas, fosse tocando “caixa” na briosa Euterpe, onde desfilava com farda engalana, ou nas muitas orquestras e banda em que exerceu a função de baterista. Como fazia no futebol, na bateria ele não deixava por menos: atraía toda a atenção para si, realizando movimentos dignos de um malabarista.

Histórias e estórias

O músico Lane tocando "caixa" na Filarmônica Euterpe Itabunense

O músico Lane tocando “caixa” na briosa Filarmônica Euterpe Itabunense

Bater nos pratos e caixas de percussão com braços trocados era o que mais gostava. Dizem, até, que alguns músicos sem essas habilidades peculiares não gostavam de tocar junto com Lane, pois se sentiam menosprezados pela quantidade de aplausos dirigidos ao baterista. Restrições à parte, a plateia sempre vinha ao delírio nas noites mais inspiradas.

Contam os amigos mais chegados – com os quais dividia mesas nos muitos bares da cidade –, que certa feita, ao tocar numa conceituada orquestra itabunense, Lane resolveu embalar a festa. Lá pelas três horas da manhã, abandonou seu instrumento de trabalho – a bateria – e decidiu assumir o posto de crooner, imitando o astro americano Ray Charles.

Enquanto cantava, os assistentes da plateia, já devidamente embalados com o consumo de rabos-de-galo, sambas-em-Berlim, Ron Merino, cervejas e outras iguarias etílicas, começaram a jogar bolas de papel em sua direção. Com a elegância de sempre, Lane resolveu usar seus dotes futebolísticos e, com maestria, cabeceava cada bolinha de papel atirada em sua direção.

De repente, o violonista ao seu lado percebe o sangue jorrando da testa de Lane, que manchava o seu smoking. A orquestra para a música e seus colegas correm em sua direção para prestar socorro, temendo ser algum problema fatal, até descobrirem que não passava de um corte superficial. E foi o próprio Lane quem explicou:

– Eu fui cabeceando, cabeceando, até que jogaram uma taça…e aí não teve outro jeito – confessou.

Numa outra feita, Lane voltava para casa depois de mais uma noitada tocando num dos muitos clubes de Itabuna. Naquela época, dois eram os caminhos obrigatórios para se chegar ao bairro Conceição: a ponte do Tororó – por muitos também chamada de “ponte dos velhacos” – e a ponte velha, batizada de Miguel Calmon, local preferido pelos “amigos do alheio” daquela época para esperar os incautos escondidos nas guarda-vidas (recuos), um local perfeito para a tocaia.

E eis que surge Lane no início da ponte, caminhando despreocupadamente, até que, a chegar no meio, dois indivíduos surgem do guarda-vidas e anunciam o assalto.

Com o susto, Lane se desequilibrou e caiu, apoiando-se no chão para não sujar o terno de linho Branco S 120, todo engomado. Surpreso com a atitude da vítima, os dois ladrões se assustaram e disseram um pro outro:

– Vamos cair fora que o velho é capoeirista! – e saíram em debandada.

Lane não se fez de rogado, levantou, sacudiu a poeira das mãos e continuou seu caminho para chegar em casa.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no Jornal Agora em 28-08-2003

O marketing do cacau e o da cachaça

Walmir Rosário

O cultivo do cacau, ou mais especificamente o legado sociocultural e econômico transmitido pela cultura do cacau, nos deixou mal acostumados, a ponto de não buscarmos novas fontes de agregação de valores ao nosso principal produto. Isto é fato e não se discute mais. Qualquer novidade a ser implantada sempre nos desperta a sensação de que estamos incursionando pelo caminho mais difícil e de menor valia.

Atavicamente, até movidos pelos resultados financeiros obtidos com a venda do cacau em amêndoas, nos escusamos em investir na agroindústria. E isto não é de agora, época em que os cacauicultores estão realmente descapitalizados. Antes, quando obtínhamos preços justos pela produção, nos sentíamos satisfeitos e dizíamos que nossa vocação era a de produtor, outros que cuidassem de produzir.

Realmente, os outros, a exemplo dos gringos da Nestlé, Garoto, Lacta e por aí afora, se dedicavam a esta difícil e espinhosa tarefa. Por ter realizado esse “sacrifício”, foram bem remunerados, ganharam dinheiro. Muito, por sinal. Somente a título de lembrança, sozinha, a Chocolates Garoto, instalada em Vitória (ES), faturava com a industrialização quase o dobro da produção de cacau em bagas de todo o Sul da Bahia.

Não fossem investimentos de empresários visionários e, por que não dizer teimosos, a exemplo de Hans Schaeppi, que resolveu dar gostos aromas, sabores e licores de chocolate em nosso cacau, ainda hoje teríamos que nos deslocar ao Sul do País (Gramado como exemplo), para degustar um chocolate caseiro.

Mas como a economia regional não se resume à cacauicultura, apesar de ser nossa mais importante matriz econômica, outras atividades podem e devem ser incrementadas. Entretanto, com a globalização da economia, hoje não basta apenas produzir, e sim produzir bem, adicionando valores capazes de diferenciar o produto de outros existentes no mercado.

Um bom exemplo desse descaso ou falta de vocação do produtor do Sul da Bahia é a cachaça. O que para uns pode ser a perdição física e moral, a outros pode significar um negócio das arábias, ou contemporaneamente, da China. Isto mesmo, produzir cachaça é um grande negócio, e que o digam produtores de Minas Gerais, principalmente da cidade de Salinas, que conferem à bebida status e dignidade dos grandes scotchs.

Esta semana, ao receber um release do Ministério da Agricultura que deu entrada no pedido de registro da Indicação Geográfica (IG) na modalidade Indicação de Procedência, Paraty, no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Com o reconhecimento, só poderá ter o nome Paraty a cachaça produzida naquele município, a exemplo do que já acontece com a champagne produzida na França.

Não é de hoje que a palavra paraty é sinônimo da cachaça fabricada no município do litoral carioca do mesmo nome. Até o escritor Aloísio de Azevedo, no livro O cortiço, já fazia referência à aguardente. A partir de agora, o substantivo paraty servirá para identificar toda cachaça produzida naquela região do Rio de Janeiro, seguindo as diretrizes da certificação de origem.

Como um dos grandes apreciadores da cachaça de Paraty, louvo a ideia da Associação dos Produtores e Amigos da Cachaça Artesanal de Paraty (Apacap), técnicos do Mapa e da SFA (RJ) e do Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequena Empresa (Sebrae). Ressalto, entretanto, que lá, os donos de alambique são empresários preocupados com seus negócios.

Ao invés de se acomodarem, os produtores de cachaça de Paraty foram em busca de novos ingredientes para alavancar o desenvolvimento do negócio cachaça junto aos órgãos técnicos. E conseguiram. Os empresários cobram e aos organismos governamentais atendem, como é próprio de um país democrático e que as instituições funcionam.

Infelizmente não se pode dizer o mesmo no Sul da Bahia, onde as instituições não têm a mesma importância das pessoas. Em nossa região produzimos excelentes cachaças, fruto apenas do empreendedorismo de alguns produtores, a exemplo de Elmiro, em Itajuípe. Mas que não passa disso. Nenhum órgão governamental tem feito pesquisas nesta área. Sejam elas agronômicas, com a finalidade de construir material genético com teores de açúcar compatíveis com a produção e qualidade da cachaça, ou sobre a adubação ideal.

A mesma inércia acomete órgãos que, teoricamente, teriam como finalidade acompanhar e desenvolver produtos, a exemplo do Sebrae. Nossos produtos primam pela qualidade, mas são relegados à condição de primos pobres de outras bebidas, a exemplo do uísque, stanheguer, rum, sakê, vinho, dentre outros. A não ser que percorram o caminho trilhado por grandes produtores de São Paulo, ou os tradicionais de Minas Gerais.

A técnica do Ministério da Agricultura responsável pela área, Bivanilda Almeida Tapias, explica que o Mapa atualmente está trabalhando em 10 projetos já selecionados no diagnóstico nacional de potenciais Indicações Geográficas (IG) de produtos agropecuários como o queijo, açafrão da terra, café e outros tipos de cachaça em outras regiões do Brasil. Estes trabalhos são conduzidos pelos fiscais federais agropecuários das superintendências federais de agricultura nos estados, que têm sido treinados para acompanhar todo o processo de reconhecimento e proteção das IG.

O IG é uma prática secular na Europa, mas no Brasil a Lei de Propriedade Industrial (Lei 9.279) é de 1996 e só há cinco anos está sendo efetivamente colocada em prática. A União Européia tem mais de três mil produtos agropecuários registrados como IG. Enquanto isso, ainda estamos engatinhando nesta área, apesar da nossa cachaça ser produzida desde o século XVIII, como é o caso de Paraty, que passou a ser sinônimo de cachaça.

Tenho de parabenizar os fabricantes de cachaça de Paraty, principalmente aos meus amigos Eduardo e Luiz Mello, filhos e netos de cachaceiros; Anísio Gama, José Carlos (Socó) e a viúva Mazinho pelos 300 mil litros de cachaça produzidos anualmente. O setor é a segunda maior fonte de renda do município, ficando atrás apenas do turismo. Ao mesmo tempo, só me resta solicitar às autoridades governamentais que olhe com responsabilidade para um dos segmentos produtivos mais promissores.

Ah, já ia me esquecendo: quanto à qualidade da cachaça de Paraty, posso atestar que se trata de uma bebida sublime, digna dos melhores, exigentes e mais refinados paladares. Não é à toa que costumo beber, com muita parcimônia o estoque que mantenho em casa da “Coqueiro”, a mim presenteada pelos amigos e cachaceiros Eduardo e Antonio Carlos Melo. Sorry, periferia…

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

 

Publicado no Jornal Agora em 08-12-2006

A reforma tributária

Walmir Rosário

O setor produtivo vem se angustiando com as diversas propostas sobre a reforma tributária, até mesmo com as ações e a insensatez cometida por diversos setores, que vêm tentando barrá-la no Congresso Nacional. Resta aos empresários apenas uma pergunta: o que realmente significará a reforma fiscal para os meios de produção? Afinal, mais de 30% do que se produz no país transformam-se em impostos.

A essa pergunta cabe uma resposta: o setor produtivo terá de passar mais alguns meses do ano – atualmente são quatro – produzindo apenas para recolher tributos aos cofres governamentais. Num país onde as desigualdades sociais são gritantes, não resta dúvida de que essa é uma carga de fato pesada demais e sufocante. É, também, inibidora do acesso ao mercado consumidor, com o reflexo nos preços; e na produção, que é obrigada a retrair-se, diminuindo sensivelmente os índices de emprego.

Para o que serve o a quem serve a reforma fiscal? Para o setor produtivo é que não. Entendem os especialistas no assunto, que uma mudança profunda deve ser feita, obedecendo, porém, critérios que tornem os tributos uma alavanca para o desenvolvimento, através da cobrança justa e equânime, aplicada com igualdade. E por isso entende-se de que a reforma tributária deve representar uma intensa redução fiscal.

Tomemos o setor automobilístico como exemplo. Nele, a carga tributária de impostos diretos sobre o automóvel médio é de 33,8%. Comparativamente, a segunda maior, a da França (17,1%) é metade da brasileira. A média europeia é de 14%, enquanto nos Estados Unidos da América a tributação sobre os automóveis é de 6,6%. Há, ainda, o problema da tributação sem cascata.

E o que é pior: fala-se agora na criação de “tributos seletivos” para supérfluos, entre os quais estaria o automóvel, que, na maioria das vezes, não tem nada de supérfluo, sendo um instrumento de trabalho para muitos. Mais uma vez um setor é eleito “bola da vez” pela sanha de arrecadação do Governo Federal, que a cada dia precisa coletar mais impostos, para que possa gastá-lo, na maioria das vezes, muito mal. Nesse caso, mais uma vez, o consumidor compra um e paga dois. Um para si outro para o governo.

O comércio é outro setor que sofre com a falta de política tributária – o mais aplicado é a infame política tributária –, provocando uma rotatividade na abertura e fechamento de empresas. Lojistas de tradição são obrigados a fechar os seus negócios devido ao arrocho fiscal e a crescente diminuição do poder de consumo. Para o governo não importa se o comércio representa a maior geração de empregos entre os diversos setores produtivos. Com essa prática perversa o governo vem matando sua “galinha dos ovos de ouro”, pois sem emprego não há renda, sem renda não há impostos.

De sã consciência, temos convicção de que a reforma tributária é fundamental, mas tem que ser elaborada e executada dentro do conceito de que menos imposto significa mais demanda, produção, arrecadação e, especialmente, mais empregos. Porém, enquanto a aguardamos, há necessidade de medidas de curto e médio prazos que podem ser adotadas para viabilizar rapidamente a retomada do crescimento.

Muitas das medidas que podem ser tomadas para reverter a atual situação estão nas mãos do governo, mais precisamente do Executivo, que detém instrumentos eficazes para a sua aplicação. Caso o governo se disponha a tomar a iniciativa, basta, apenas, buscar em consenso com o setor produtivo essas medidas, no sentido de facilitar a produção. Diminuir o “custo Brasil” é um discurso que precisa ser levado a sério e não ser lembrado apenas nos palanques eleitorais.

O fim do “custo Brasil” pode ser facilmente resolvido apenas com a eliminação dos entraves burocráticos colocados pelo governo no setor produtivo, permitindo que a iniciativa privada ganhe a agilidade necessária para retomar a produção, hoje esmagada por uma série de exigências descabidas no início do terceiro milênio. Que o governo faça sua parte e o setor produtivo se encarregará de tornar o Brasil um país possível de se viver com dignidade.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no caderno Momento Empresarial do Jornal Agora em 14-08-1999

Igualdade e responsabilidade

Walmir Rosário

Mais uma vez voltamos a chamar a atenção da sociedade – incluídas aí as autoridades – para problemas sociais como a proliferação do comércio ambulante nas ruas centrais de nossa cidade, especialmente a avenida do Cinquentenário. Principal ponto comercial de uma região, a Cinquentenário é hoje o cartão postal de uma cidade onde não são respeitadas as leis federais, estaduais e municipais.

O Código de Postura, o Código Tributário e seus regulamentos, decretos e portarias foram relegados ao desprezo, colocados no fundo das gavetas. Se verificarmos a legislação estadual, também aí, são feitas vistas grossas e a zelosa Secretaria da Fazenda não cobra o sagrado Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), e as mercadorias podem circular livremente, sem qualquer obstáculo pela frente, desde que estejam numa banca de camelô.

O Ministério da Fazenda nada vê: contrabando, descaminho, nada disso, mesmo estando tudo isso à vista dos fiscais e consumidores. Descaminho são apenas aquelas mercadorias apreendidas na fronteira do Paraguai ou nos ônibus de sacoleiros. Imposto de Renda, nada disso. Apesar da Constituição Federativa do Brasil, em seu artigo 5º, consagrar que todos são iguais, dois pesos e duas medidas são adotados.

O que está em discussão não é o fim da atividade do comércio ambulante e sim a prática da desigualdade utilizada pelas autoridades. Prática essa que incentiva a proliferação de novas bancas pelas ruas do centro da cidade. E o pior. Esse incremento está sendo feito por comerciantes de outras cidades, que agenciam falsos camelôs, escamoteando uma realidade nacional que é a mudança do tipo de emprego.

É urgente a tomada de posição das autoridades para coibir a prática cada vez maior da sonegação fiscal, feita de forma sub-reptícia por pessoas sem compromisso com a sociedade. É premente a identificação dessas pessoas, para que possam ser cadastradas e até apoiadas na sua luta pela sobrevivência, desde que também contribuam para os cofres públicos, a exemplo de outros cidadãos.

A situação está posta e não precisa ser tratadas como “cavalo de batalha”. Basta ser diagnosticada, planejada e executada com racionalidade, evitando-se o uso político da miséria alheia. Com isso, ganham os camelôs, ganham os consumidores legalmente estabelecidos, ganham os poderes públicos com a arrecadação de impostos, enfim, ganha a sociedade itabunense como um todo.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no caderno Momento Empresarial do Jornal Agora em 18-10-1998

Transformação no comércio

Walmir Rosário

Há cerca de 10 anos que o comércio varejista vem passando por grandes transformações. Para uns é o efeito da globalização, com nova visão do mercado. Para outros, é apenas uma decorrência da modernização da atividade. Mas não podemos negar que os efeitos da globalização aceleraram esse processo, para permitir a competição com as grandes empresas vindas do exterior; as multinacionais do varejo, trazidas pela fase de abertura econômica vivida no Brasil. Nas pequenas e médias cidades, as mudanças ainda não são tão marcantes, mas o quadro já preocupa os empresários das grandes cidades.

A onda de globalização está chegando ao eixo Ilhéus-Itabuna, primeiro na última, onde será inaugurado o primeiro shopping center do Sul da Bahia, o Jequitibá, o que por certo provocará uma profunda mudança no nosso comércio varejista. Acreditamos que a concorrência será melhor, mais saudável, pois enquanto os empresários do shopping oferecem estacionamento, ar-condicionado e outras regalias, proporcionando mais comodidade, os do centro da cidade podem contra-atacar com outros tipos de promoções, concorrendo em preço.

Essa concorrência é visível onde os dois tipos de comércio já estão convivendo. Pesquisas recentes comprovam que há lugar para grandes e pequenos, desde que cada um procure o seu nicho de mercado, evitando, portanto, a concorrência predatória. De acordo com os pesquisadores, não dá para enfrentá-los de igual para igual, evitando-se a eliminação progressiva dos concorrentes menores. É evidente que a competição leal é saudável, impulsiona os negócios e beneficia o consumidor.

O empresário que não entender isso, com certeza, deixará a atividade num tempo bem menor do que se poderia imaginar. O seu negócio passará para as mãos de concorrentes mais aptos e ágeis, ou do contrário fechará as portas. É preciso saber onde está o seu cliente e ir buscá-lo, oferecendo o que as grandes redes não sabem fazer: tratá-los de forma personalizada e com o carinho como só os verdadeiros amigos sabem fazer. A depender do tipo de negócio, não espere que ele lhe seja totalmente fiel, mas que não o despreze.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no caderno Momento Empresarial do Jornal Agora em 04-09-1999

 

Desabafo de um necrólatra

Walmir Rosário

– Companheiros, fomos ultrajados e nossa honra manchada. Não poderemos aceitar passivamente tamanho achincalhe praticado contra nós, pessoas benfeitoras da comunidade, que temos procurado levar nossa solidariedade e palavras de conforto aos parentes dos falecidos – reclamava o inflamado orador.

A assembleia estava perplexa, afinal de contas, o orador, até aquele momento, era pessoa considerada dócil e equilibrada, digna de um passado exemplar e um presente por demais pacato. O que teria provocada a ira do telegrafista aposentado pelos Correios e Telégrafos, rádio-escuta dos áureos tempos da Rádio Clube de Itabuna e atual dirigente de uma conceituada empresa gráfica? Indagava a plateia.

Para todos os presentes, o comportamento de José de Freitas, ou “Poly”, como é mais conhecido, não se coadunava com o espírito de quem já havia exercido o cargo de Juiz de Paz, resolvendo problemas da sociedade, aconselhando desafetos, unindo pessoas pelo sagrado laço do matrimônio. Qual o motivo de tamanho furor? Logo Poly, um viúvo que levava uma vida regrada, cuja maior extravagancia que se dava ao luxo era se reunir com os amigos para uma rodada de bate-papo na loja A Imperatriz, conversando amenidades e, no máximo, um fim de semana de descanso em Canavieiras.

E era justamente isso que intrigava os presentes. Alguma coisa estaria errada. Seria, por acaso, essa tal de andropausa? Por acaso Poly teria alcançado a malfada senilidade? Indagavam-se desconcertados os companheiros de assembleia.

Aos poucos as dúvidas da plateia foram sendo desfeitas com as competentes explicações oferecidas pelo orador:  O motivo da indignação fora causada por uma crônica escrita pelo jornalista e escritor Antônio Lopes, no Caderno Banda B, do Jornal Agora, sob o título: “Quando eu me chamei saudade”, contando um sonho em que teria morrido num trágico acidente automobilístico entre Buerarema e Itabuna. O grande pecado cometido pelo cronista foi o de não ter citado, nem en passant, nenhum dos conceituados necrólatras de Itabuna.

– Observem, companheiros, esse Lopes, no alto de sua sabedoria, se contentou apenas em atrapalhar o trânsito na avenida do Cinquentenário, como se isso representasse uma glória para um defunto, quanto mais um de cujus ilustre, em vida homem de letras, microfone e imagem como ele. Se convidados fôssemos, teríamos organizado um velório sublime, digno de um homem que dedicou sua vida a congressos, seminários, saraus literários e tertúlias tantas – desabafava Poly.

Enquanto desfiava seu rosário e ladainhas de lamentações, foi interrompido por um dos presentes que o indagou:

– Talvez o de cujus não tenha tido essa possibilidade de nos convidar, já que estava morto? Como poderia ele se lembrar disso? A família, sim foi quem falhou! – defendeu.

Nem mesmo uma explicação plausível como essa foi capaz de acalmar o esbaforido Poly, que indiferente às explicações vociferava:

– Como é que um intelectual dessa estirpe poderia deixar de nos convidar, além de outras tantas pessoas ilustres e letradas da mais fina flor da sociedade. Numa sentinela dessa magnitude, poderíamos organizar eventos dos mais diversos, a exemplo de debates sobre a vida e obra do de cujus. Acredito que o Dr. Renan Sílvio Santos não iria se furtar de discorrer uma tese abalizada sobre os ‘Efeitos Jurídicos da Morte de um Escritor na sua Propriedade Intelectual’. Poderíamos, ainda, convocar em Ilhéus o seu colega escritor Jorge de Souza Araujo, com a finalidade de apresentar um eminente estudo sobre a obra literária do defunto por ocasião dos 500 anos do Brasil; caberia ao cronista canavieirense Carlos de Carvalho delinear a trajetória literária do de cujus; e, quiçá, Mário Augusto, de São Paulo, que poderia falar na repercussão do livro ‘Buerarema falando para o mundo’, no contexto literário nacional – explicou, Poly.

Para o dia do sepultamento, Poly já tinha planejado meticulosamente um desfile apoteótico do féretro pela avenida do Cinquentenário, tendo a frente José Oduque Teixeira, responsável pelo asfaltamento dessa importante avenida; a Fanfarra do Imeam levantando os aplausos de comerciantes, comerciários e outros desocupados; e até a participação de Vivaldo Moncorvo, seu colega (de Poly) telegrafista, apresentando a charanga, sem custos financeiros, acredita.

Porém, o melhor estaria reservado para a subida da rua Antônio Muniz, último trecho a ser percorrido pelo cortejo antes de chegar ao Campo Santo. Naquele local já estaria previamente postado o Coral da Ceplac, além do tenor Duduca Paixão, que cantaria a pleno pulmões “Segura na mão de Deus e vá”, encomendando o defunto com todas as honras possíveis e imagináveis a que, por certo teria direito.

Sem conter mais a emoção, a voz trêmula de pesar, Poly, enfim, desabafou:

– Companheiros, em vida, esse Lopes sempre foi um cara porreta, mas, morto, se revelou um péssimo sonhador – disse.

Dito isso, saiu da assembleia com destino à avenida do Cinquentenário, talvez para saber se teria morrido mais uma pessoa importante da cidade.

Jornalista, advogado e editor do www.ciadanoticia.com.br

Publicado no caderno Momento Empresarial do Jornal Agora em 23-10-1999

(O advogado Renan Sílvio Santos faleceu às primeiras horas do mesmo dia publicação, sem ler essa crônica)

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